A Polícia Federal apura se o senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o território nacional a bordo de um jato executivo com destino à Argentina, na madrugada de terça-feira (27), contradizendo o registro oficial de entrada por terra. A hipótese revela uma engenharia logística para driblar a determinação do STF de entrega de passaportes. O que parecia uma simples travessia de fronteira esconde, na verdade, uma operação com múltiplas escalas e aeronaves de terceiros.
O voo que não existia no radar oficial
Dados de voo confirmados mostram que um Cessna 560XL Citation Excel, prefixo PR-AAA, decolou de Brasília às 5h e pousou em San Fernando, região metropolitana de Buenos Aires, às 8h40. A aeronave pertence ao advogado Willer Tomaz, investigado junto com Flávio por lavagem de dinheiro no Supremo. Para os investigadores, esse deslocamento aéreo é a peça que faltava para explicar a saída do senador do país sem passar pelo controle migratório brasileiro.
O enigma dos 1.200 quilômetros
Após pousar nos arredores da capital argentina, Flávio precisaria chegar a Puerto Iguazú, na fronteira com Foz do Iguaçu, para pegar o voo internacional. A distância supera 1.200 km — 13 horas de carro ou apenas duas de avião. A PF ainda não esclareceu qual meio de transporte foi usado nesse trecho, mas a agilidade do cronograma sugere outra aeronave não identificada.
- Origem: Brasília (DF) — 05h00
- Destino inicial: San Fernando (Buenos Aires) — 08h40
- Trecho suspeito: San Fernando → Puerto Iguazú (1.200 km)
- Voo final: Puerto Iguazú → Guayaquil → Miami — saída 23h30
Registro migratório sob suspeita
A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio, a esposa e as duas filhas entraram por terra às 22h50 de terça, menos de uma hora antes do embarque para os EUA. Contudo, a PF desconfia que a entrada ocorreu horas antes e o carimbo foi antecipado propositalmente. O voo final, operado pela aeronave LV-JQW, evitou o espaço aéreo brasileiro sobrevoando Paraguai, Bolívia e Peru.
O pano de fundo judicial
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz são alvos de inquérito no STF, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, por suspeita de lavagem de dinheiro. E-mails apreendidos indicam que o senador era “usuário master” de conta bancária de empresa do advogado. Moraes determinou a entrega dos passaportes, ordem não cumprida até a data da partida. A saída do país, portanto, configura potencial descumprimento de medida cautelar.
O que observar daqui para frente
A investigação agora mira a identificação de todos os envolvidos na logística — pilotos, operadores de hangar e eventuais facilitadores na Argentina. A quebra de sigilo telemático dos investigados pode revelar a cronologia exata das comunicações que orquestraram a partida. Para o cenário político, a permanência de Flávio nos EUA sem data de retorno pressiona o STF a definir medidas coercitivas, enquanto a base aliada avalia o desgaste de ter um senador foragido da justiça eleitoral e penal.
