O PIB per capita do Reino Unido estaria um terço maior hoje se a trajetória pré-2008 não tivesse sido interrompida. O novo Orçamento tem a missão de reverter essa estagnação, mas um único projeto de infraestrutura expõe o tamanho do obstáculo burocrático.
O ministro das Finanças, John Healey, apresenta as contas públicas sob uma pressão dupla: provar responsabilidade fiscal e, ao mesmo tempo, destravar uma economia que parou no tempo. A conta não fecha sem crescimento.
As duas amarras que impedem o avanço britânico
Qualquer estratégia séria precisa encarar duas restrições duras. A primeira é interna e demográfica: a população envelhece rápido e a hostilidade à imigração piora o cenário. Resultado? Mais pressão sobre gastos públicos, dívida crescente e crescimento por habitante mais lento.
A segunda é geopolítica. O mundo tornou-se mais volátil e as grandes potências usam dependências econômicas como armas. A resposta, segundo especialistas, não é fechar as portas, mas construir uma “abertura segura” — gerir riscos de forma sistemática sem abrir mão do comércio.
O diagnóstico: crescimento ruim vira política tóxica
Desde a crise financeira, o Reino Unido diverge do padrão histórico. Estudos do King’s College London mostram que o PIB real per capita nunca recuperou a tendência anterior. Se tivesse mantido o ritmo, cada britânico seria hoje cerca de 33% mais rico.
Essa estagnação explica a política conflituosa atual. Sem expansão da “torta”, o debate vira briga de soma zero entre classes, gerações e regiões. Acelerar o crescimento não é opcional; é condição para qualquer estabilidade social.
Duas alavancas baratas (e ignoradas) para virar o jogo
O governo tem à mão ferramentas de baixo custo fiscal e alto impacto estrutural. Ambas constam nos “Growth Papers” e exigem vontade política, não bilhões extras:
- Descentralização radical: O Reino Unido é extremamente centralizado. Dar às cidades — Londres incluída — poder de arrecadar e gastar seus recursos imita o motor de dinamismo chinês.
- Desregulamentação cirúrgica: Cortar o excesso de regras que paralisa construção e infraestrutura, sem enfraquecer proteções trabalhistas ou ambientais essenciais.
O caso Lower Thames Crossing: 359 mil páginas para um túnel
O relatório Building More for Less, da Britain Remade, coloca números no absurdo. Projetos de transporte no UK custam 1,2 a 2 vezes mais que em países pares. O exemplo símbolo é a travessia do baixo Tâmisa:
- Licenciamento: 359.070 páginas de documentação.
- Custo só para planejar: Quase 300 milhões de libras (R$ 2,1 bilhões).
- Estudo de impacto ambiental: Mais de 12 mil páginas.
- Obra total: 22 km de estrada (4,18 km de túnel) orçados entre 9 e 10,6 bilhões de libras (até R$ 75 bilhões).
Gastar o equivalente a um orçamento anual de uma cidade média apenas para pedir permissão para construir é uma “insanidade” que precisa acabar, nas palavras dos próprios analistas.
O que o Orçamento precisa entregar daqui pra frente
Healey tem três frentes prioritárias: reforma tributária, devolução de poder às regiões e desburocratização da construção. Nenhuma é gratuita politicamente, mas o custo da inação — medido em trilhões de PIB perdido ao longo de 15 anos — é infinitamente maior.
O fechamento do ciclo exige transmitir “tédio prudente” aos mercados: contas organizadas, regras claras e previsibilidade. Em tempos de volatilidade global, o tédio é o melhor ativo de risco que um país pode oferecer.
O que observar: A velocidade com que o governo transforma a “descentralização” de promessa em legislação orçamentária concreta. Se as cidades ganharem autonomia fiscal real no próximo ano financeiro, o sinal de virada estará dado. Se ficar no discurso, a estagnação continua.
