Justiça

Passaporte apreendido: a teia entre Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e as bets

Foto do senador Flávio Bolsonaro em plenário, sobreposta a ícone de passaporte brasileiro retido e martelo judicial
Flávio Bolsonaro tem passaportes apreendidos por ordem de Alexandre de Moraes no âmbito da Operação Sem Desconto

O senador Flávio Bolsonaro (PL) teve os passaportes comum e diplomático recolhidos pela Polícia Federal e está impedido de deixar o país por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A decisão também veda qualquer comunicação com o advogado Willer Tomaz, investigado por lavagem de dinheiro e alvo da Operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS. A medida expõe uma rede de relações que vem sendo mapeada desde 2019 e que agora atinge em cheio o nascente mercado regulado de apostas online.

O que está em jogo vai além do destino político do parlamentar. Investidores e operadores do setor de bets observam com lupa: a investigação pode redefinir regras de compliance, due diligence e até o processo de licenciamento estadual e federal. A seguir, os cinco eixos que sustentam o inquérito.

A suspeita de sociedade oculta na primeira bet licenciada

O elo mais forte, segundo a PF, é a posição de Flávio como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa de Willer registrada na Ilha da Madeira (Portugal). Reportagens do UOL e da Folha confirmam que a Alcazar teria capitalizado a Cathedral Holdings, única acionista da Rede Loto — primeira casa de apostas a obter licença no Brasil, concedida pelo governo fluminense em 2023.

A licença saiu cerca de dois meses após a criação da Rede Loto (17/02/2023). O trâmite na Loterj foi conduzido por Hazenclever Cançado, nomeado pelo governador Cláudio Castro por sugestão de Flávio e ex-colega de advocacia de Willer. A PF apura se o senador é sócio oculto da marca BestBet, operada pelo conglomerado.

Willer e familiares detêm a maioria das ações da Cathedral Holdings. Quando a informação veio a público, a assessoria de Flávio classificou a relação como “exclusivamente de amizade” e negou irregularidades.

Voos executivos, jato de dono de banco e a rota para Dubai

As investigações mostram que ambos compartilharam conta PJ e viajaram juntos em jatos executivos para EUA, Europa e África a partir de janeiro de 2025. O primeiro trecho identificado: Fort Lauderdale (EUA) a Brasília, a bordo de um Legacy 650 (prefixo PP-NLR), propriedade da Fraction 024 — controlada pela Prime You, de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.

A mesma aeronave teria sido reservada para uma tentativa de fuga para Dubai, segundo a PF. Willer afirma ter custeado o trecho com horas de sua cota pessoal e que os passageiros eram seus convidados. A assessoria do senador não comentou especificamente sobre os voos.

Mansão em Angra dos Reis: R$ 10 milhões e uma disputa judicial

Em julho de 2020, Flávio visitou pela primeira vez uma ilha no litoral fluminense cujos direitos de posse, desde 2022, pertencem a uma gestora de ativos de Willer. O imóvel, avaliado em R$ 10 milhões, é alvo de litígio com o jogador Richarlison, que alega tê-lo comprado em 2020. Flávio figura como testemunha no processo.

  • Maio/2022: liminar consolida o direito de uso a Willer.
  • Julho/2024: Richarlison pede à PF investigação sobre atuação do senador na posse do imóvel.
  • Defesa de Willer: afirma ter pago R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais e classifica ocupantes anteriores como invasores.

Vizinhos e o atleta sustentam que é Flávio quem mais frequenta a propriedade. O senador nega atuação irregular.

Endereço compartilhado e o “Careca do INSS”

Em Águas Claras (DF), a Bravo Grafeno — empresa de capacetes de grafeno da qual Flávio e Jair Bolsonaro são sócios — divide a mesma sala comercial com a RPLD, construtora de Antônio Carlos Camilo, o “Careca do INSS”, também investigado por lavagem de dinheiro. A coincidência foi revelada pelo site ICL.

A teia societária adensa-se: Alexandre Caetano dos Reis, sócio-majoritário do Careca, tem a irmã, Letícia Caetano dos Reis, como diretora estatutária do escritório de advocacia de Flávio. O escritório funciona em uma casa de R$ 6 milhões quitada à vista com R$ 3,4 milhões pagos ao BRB (Banco de Brasília).

Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, o escritório emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais; metade destinada a outros advogados. Flávio alega que as reportagens tentam criminalizar a advocacia.

Cliente em comum: a fábrica de balas que uniu as defesas

Durante a campanha presidencial de 2022, Flávio passou a assinar peças processuais em nome de Mário Gadelha Simas Filho, dono da Simas Industrial de Alimentos — uma das maiores fabricantes de balas e pirulitos do país. Willer já advogava para o empresário em uma disputa societária e não teve a procuração revogada, mas Flávio assumiu a representação ativa nos autos.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem monitoramento contínuo por quem opera ou investe no ecossistema de apostas e no mercado financeiro brasileiro:

  • Desdobramento do inquérito da PF sobre a BestBet: se confirmada a sociedade oculta, a licença da Loterj pode ser revista, criando precedente para revisão de outorgas estaduais.
  • Decisões do STF sobre quebras de sigilo e bloqueio de ativos: a extensão das medidas a holdings no exterior (Ilha da Madeira) testa a cooperação jurídica internacional.
  • Regulamentação federal das bets (Lei 14.790/2023): o caso acelera a exigência de background check rigoroso para sócios e beneficiários finais — incluindo políticos expostos (PEPs) e seus círculos próximos.

Para o empresariado, o sinal é claro: a fronteira entre relacionamento pessoal, estrutura societária offshore e atuação regulatória nunca esteve tão sob escrutínio. Acompanhar os próximos relatórios da PF e os votos no STF deixa de ser apenas notícia política e vira variável de risco de compliance.