Tecnologia

A ruptura que vale US$ 2 tri: quem são os 7 por trás da Anthropic

Sete fundadores da Anthropic reunidos, fundo com logo Claude IA, representando cisão da OpenAI por segurança
Os sete pesquisadores que deixaram a OpenAI para fundar a Anthropic e priorizar segurança em IA.

A Anthropic, criadora do modelo Claude, caminha para uma abertura de capital (IPO) que pode avaliar a empresa em US$ 2 trilhões — o maior da história. Tudo começou em 2021, quando sete pesquisadores-chave bateram a porta da OpenAI discordando do rumo da segurança da IA. O que une esse grupo e por que o mercado aposta tão alto neles?

A origem: segurança acima da velocidade

A cisão não foi por dinheiro, mas por filosofia. O estopim foi a direção que a OpenAI dava ao desenvolvimento de modelos cada vez mais poderosos sem, na visão do grupo, salvaguardas proporcionais. Eles fundaram a Anthropic com a proposta de “IA Constitucional”: treinar sistemas alinhados a princípios escritos, não apenas a feedback humano.

Hoje, essa aposta atrai bilhões de Google, Amazon e Salesforce. A promessa de um IPO recorde transforma os sete fundadores nos novos bilionários do Vale do Silício — mas a trajetória de cada um explica por que investidores confiam a eles o futuro da tecnologia.

Os irmãos Amodei: ciência, política e o peso da decisão

Dario Amodei, 43 anos, CEO. Físico e neurocientista computacional (PhD em Princeton, bolsista Hertz), liderou o desenvolvimento do GPT-2 e GPT-3. Nos últimos meses, tornou-se a voz mais dissonante do setor: publicou ensaio de 3.800 palavras pedindo desaceleração global, confrontou o Pentágono sobre armas autônomas e jantou com Donald Trump para debater regulação.

Daniela Amodei, 39 anos, Presidente. Formada em literatura, migrou da política (campanhas democratas) para operações na Stripe e, depois, segurança e RH na OpenAI. Ela gerencia a execução do dia a dia. Em evento na Stanford, resumiu a parceria: “Brigamos e fazemos as pazes há quase 40 anos. Sabemos superar conflitos juntos.” O marido, Holden Karnofsky, é nome central do altruísmo eficaz, filosofia que molda a cultura de risco da empresa.

O núcleo duro da pesquisa: Kaplan, McCandlish e Brown

Três perfis complementares sustentam a engenharia por trás do Claude:

  • Jared Kaplan, 42, Chief Science Officer: Físico teórico (Harvard/Stanford), criou o método de IA Constitucional. Conheceu Dario dividindo carona para evento da bolsa Hertz — a conversa girou em torno de filantropia, não código.
  • Sam McCandlish, 36, Chief Architect: Especialista em leis de escala (scaling laws). Veio da OpenAI onde tocou GPT-3 e Codex. Em 2024, admitiu: “Nenhum de nós queria fundar empresa — só sentimos que era nosso dever.”
  • Tom Brown, 39, Diretor de Computação: Engenheiro pelo MIT, comanda a infraestrutura de treino. Defensor público da expansão de data centers, negociou direto com a Casa Branca regras de acesso a modelos avançados (Fable 5 e Mythos 5).

Da redação ao Vaticano: política e interpretabilidade

Jack Clark, 38, Chefe de Benefício Público. Ex-jornalista de tecnologia (The Register, Bloomberg), entrou na OpenAI em 2016 para policy. Na Anthropic, criou o Anthropic Institute, think tank interno para impactos socioeconômicos. Escreve a newsletter Import AI, leitura obrigável em Brasília e Washington.

Christopher Olah, 34, Líder de Interpretabilidade. Prodigio: aos 19, bolsista Thiel (US$ 100 mil) para pesquisa independente. No Google, sentava ao lado de Dario e Brown. Em 2024, discursou por sete minutos no Vaticano, ao lado do Papa Francisco, cobrando auditoria rigorosa dos laboratórios. Fundou a Distill, revista de ML com revisão por pares.

O fio invisível: Hertz, casas compartilhadas e dever moral

Olhe o currículo do grupo e três padrões saltam aos olhos:

  • Bolsa Hertz: Quatro dos sete (Dario, Daniela, Kaplan, McCandlish) são fellows — elite da ciência aplicada dos EUA.
  • Convivência densa: Moraram juntos em casas como “Archive” (SF), misturando debates técnicos, ética e logística de startup.
  • OpenAI early days: Todos passaram pela empresa entre 2016 e 2020, época em que “segurança” ainda era departamento, não produto.

Essa densidade social reduz atrito decisório. Quando McCandlish diz “era nosso dever”, resume o modus operandi: eles não fundaram a Anthropic para sair; fundaram porque ninguém mais faria do jeito que julgavam necessário.

O que observar daqui para frente

O IPO de US$ 2 tri não está garantido. Três variáveis ditam o próximo capítulo:

  • Regulação de compute: Brown negocia acesso a chips e energia; qualquer trava nos EUA ou na cadeia taiwanesa derruba projeções.
  • Retenção pós-liquidez: Com bolsos cheios, o “dever moral” segura talentos ou abre porta para novas cisões?
  • Concorrência aberta: Llama (Meta), Gemini (Google), Grok (xAI) pressionam margens. A aposta da Anthropic é que confiança corporativa vale prêmio sobre performance bruta.

Para o investidor ou executivo, o sinal claro: a próxima onda de valor em IA não virá só de modelos maiores, mas de governança técnica que grandes corporações e governos possam assinar embaixo. Os sete da Anthropic são, hoje, os únicos com currículo e coesão para entregar isso.