A liderança evangélica carioca fechou com Flávio Bolsonaro na reta final, mas o apoio nasceu da relutância, não da convicção. O que mudou entre abril e setembro redefine o tabuleiro político para 2026.
Até meados do ano, os grandes nomes do segmento mantinham distância calculada. Silas Malafaia classificava a candidatura como “negócio de família” e defendia Tarcísio de Freitas. Marco Feliciano, no púlpito da Assembleia de Deus Belém, cobrou reciprocidade dos Bolsonaro em vez de via de mão única.
O gatilho que incendiou a base
Tudo mudou em setembro. André Mendonça tornou públicas mensagens entre Alexandre de Moraes e o empresário Vorcaro, além do contrato da esposa do ministro com o banqueiro. A revelação funcionou como combustível: pastores que haviam “jogado parados” durante a pré-campanha entraram em campo às pressas.
Não foi coincidência. Antes do episódio, a avaliação interna era clara: Tarcísio venceria Lula; Flávio tinha mais chance de derrota e, se eleito, comprometeria o projeto de poder da direita.
O que pesava contra o senador
Três pontos centrais resistiam nos bastidores:
- Mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB
- Imóveis quitados com dinheiro em espécie
- Recursos de Vorcaro para filme sobre Jair Bolsonaro e mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro
Em conversas reservadas, líderes comparavam a família ao sacerdote bíblico Eli — homem honrado que não conteve filhos que “roubavam as ofertas do templo”.
O rótulo de “novo crente”
Um interlocutor direto definiu Flávio como “novo crente”: quem usa a fé politicamente sem conhecer a Bíblia, chegado à religião por uma igreja vista como deslumbrada pelo poder, a Comunidade das Nações. A percepção travava o entusiasmo genuíno.
Pragmatismo sobre princípios
Quando o apoio veio, foi frio. Flávio era o nome da direita com voto bolsonarista garantido e chance real de vitória. Somaram-se pressão dos fiéis e o cálculo de proximidade com um futuro presidente. Antes da arrancada, porém, muitos já haviam desistido de 2026 e miravam Tarcísio para 2030.
O xadrez que vem por aí
O PT evitou mencionar Otoni de Paula na vitória. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas não se entregou. Visto com desconfiança pelos petistas, pode virar ponte para negociar com as grandes igrejas — algo que o partido e seus evangélicos não quiseram ou não conseguiram fazer até aqui.
O que observar daqui pra frente
A aliança evangélica com Flávio nasceu frágil, costurada por circunstância, não convicção. Se o mandato não entregar reciprocidade concreta — espaço, pautas, acesso —, a base que orou no Maracanãzinho pode virar oposição silenciosa em 2026. O termômetro está nas próximas nomeações e na disposição do senador em pagar a fatura política que assinou no altar.
