A Volkswagen vendeu apenas 267 unidades por mês do SUV elétrico ID. UNYX 08 na China entre abril e agosto, o equivalente a 7% da meta interna de 3.622 unidades prevista para 2026. O fracasso precoce da aliança com a Xpeng escancara a crise da alemã no maior mercado automotivo do mundo e acende um sinal de alerta vermelho para a estratégia da marca no Brasil.
O abismo entre o plano e a realidade
A China, que já respondeu por quase metade do lucro global do grupo, hoje contribui com cerca de 10%. A montadora enfrenta a maior reestruturação de seus 89 anos de história. Documentos obtidos pela Reuters mostram que a projeção para 2026 já foi cortada em mais de 60%, caindo para 12,3 mil unidades anuais, enquanto o carro passou a ser anunciado com 17% de desconto nas lojas.
Três pilares que derrubaram o UNYX 08
O produto chegou custando cerca de US$ 34 mil, mas a concorrência local entregava mais tecnologia pelo mesmo preço. O resultado prático entre abril e agosto foi brutal:
- Xiaomi YU7: quase 57 mil unidades vendidas;
- Zeekr 7X: mais de 21 mil unidades;
- VW ID. UNYX 08: cerca de 1,3 mil unidades no acumulado.
Especialistas ouvidos pela agência internacional resumem a dúvida do consumidor chinês: por que pagar mais por um carro alemão se a tecnologia local é superior e mais barata? A distribuição agravou o cenário. A VW optou por uma rede nova, a Volkswagen Anhui, com apenas 166 pontos de venda, ignorando as mais de 3.000 concessionárias das joint ventures históricas FAW e SAIC. Muitos clientes sequer sabiam da existência do modelo.
A cultura do “casamento e divórcio” e metas irreais
Internamente, a estratégia de parcerias era tratada como “casamento e divórcio”: aliar-se para absorver know-how e sair em seguida. Tentativas com BYD e Leapmotor não prosperaram — a VW nega negociação com a BYD — e outras alianças terminaram em litígios. A raiz do problema, segundo fontes da Reuters, está na cultura de metas otimistas criadas para aprovar projetos na sede em Wolfsburg, desconectadas da velocidade do mercado chinês, onde ciclos de produto caíram de sete para três anos.
O cenário para 2025 e o próximo teste: UNYX 09
Em mensagem à liderança obtida pela imprensa, o executivo Ralf Brandstätter projeta uma contração “excepcional” de 20% no mercado chinês este ano, com margens setoriais de apenas 1,5%. A participação do grupo despencou de um em cada cinco carros vendidos em 2019 para 10% nos oito primeiros meses de 2024. O próximo termômetro é o sedã UNYX 09, que estreia neste mês com uma projeção interna de quase 4,9 mil vendas mensais — número que, diante do histórico recente, soa como um novo desafio de credibilidade.
O espelho brasileiro: nova Amarok e o risco de repetir o erro
A conexão com o Brasil é direta e imediata. A VW já registrou o UNYX 08 no país e prepara a nova geração da Amarok baseada na plataforma da picape chinesa Maxus Interstellar X, da SAIC. A versão de topo, apelidada de Amarok 800 TSI híbrida plug-in, promete números de supercarro: 800 Nm (81,6 kgfm) de torque, mais de 470 cv, tração integral e 0 a 100 km/h em menos de cinco segundos.
A engenharia sul-americana garante adaptações de suspensão, direção e eletrônica para o uso local, mas a base tecnológica e de custo vem da China. A lição de Pequim é clara: peso da marca e ficha técnica de ponta não garantem sucesso se o pacote tecnológico percebido pelo cliente ficar abaixo de rivais diretos ou se o preço fugir da realidade competitiva.
O que observar daqui para frente
O desenrolar da reestruturação na China — com fechamento de fábricas e cortes de “duplicações desnecessárias” entre marcas — ditará o ritmo de investimento global. No Brasil, o termômetro será o posicionamento de preço e o pacote de ADAS (assistência ao motorista) da nova Amarok frente a rivais como Ford Ranger e Toyota Hilux, que já renovaram suas ofertas híbridas ou a diesel com forte apelo tecnológico. A capacidade da VW de precificar a “base chinesa” com “engenharia brasileira” sem repetir o erro do UNYX 08 definirá se a história será de redenção ou de um novo capítulo de metas não cumpridas.
