O agronegócio brasileiro entra em 2025 sob uma tempestade perfeita: juros altos, commodities em baixa e o fantasma do El Niño pairando sobre a safra 2026-27. O governo projeta 367 milhões de toneladas de grãos, mas o cenário real pode ser bem mais duro.
Não é a primeira vez que o setor enfrenta esse roteiro. Em 2006, o então ministro Roberto Rodrigues classificou o momento como “uma das piores crises das últimas décadas”. Câmbio desfavorável, custos explosivos, preços em queda e secas no Sul dizimaram a renda do produtor. A história não se repete, mas rima.
Por que o endividamento rural não para de crescer
A Selic elevada encarece o crédito oficial e empurra o produtor para linhas privadas com taxas ainda mais salgadas. O resultado é um ciclo vicioso: maior endividamento, menor capacidade de investimento, produtividade estagnada.
Dados do Banco Central mostram que o estoque de dívida rural renegociada superou R$ 12 bilhões só no primeiro semestre. Sem um programa estruturado de seguro rural — que divide o risco entre Estado, produtor e mercado —, cada safra vira roleta russa.
O que muda (e o que não muda) na geopolítica dos insumos
Guerras na Ucrânia e no Oriente Médio alongaram cadeias de suprimento e mantiveram fertilizantes e diesel em patamares pressionados. O Brasil importa 85% do potássio que consome e cerca de 60% dos nitrogenados. Qualquer solavanco logístico bate direto no custo de produção.
Do lado positivo, a vitória de Lula evitou um cenário de retaliação comercial com a China — destino de 70% da soja brasileira. Um governo alinhado a Trump poderia ter forçado barreiras sanitárias ou tarifárias que hoje não estão na mesa.
- Fertilizantes: dependência externa segue crítica
- Diesel: paridade internacional pressiona margens
- China: relação comercial preservada, por enquanto
- União Europeia: novas barreiras ambientais entram em vigor em 2025
O El Niño que pode virar a mesa
A safra em curso foi semeada sob custos recordes. Se o fenômeno climático confirmar as projeções de chuvas irregulares no Centro-Oeste e secas no Sul, a conta não fecha. Produtores já travados no custo fixo não têm fôlego para absorver quebra de 10% a 15% na produtividade.
Para o consumidor urbano, o reflexo imediato é inflação de alimentos. O IPCA de alimentação no domicílio acumula 4,8% em 12 meses; uma safra frustrada empurraria esse índice para cima de 7%, forçando o Banco Central a manter juros restritivos por mais tempo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo do campo nos próximos 18 meses: a execução do Plano Safra 2025-26 (com orçamento ainda indefinido), a regulamentação do mercado de carbono — que pode criar receita extra para quem preserva — e a negociação do acordo Mercosul-UE, travado há anos mas com janela de abertura no primeiro semestre. Quem antecipar essas peças sai na frente; quem esperar o clarão do trovão, colhe o prejuízo.
