Justiça

O Congresso que Lula herdou: números mostram batalha dura pela governabilidade

Lula discursa no Congresso Nacional cercado por parlamentares em sessão tensa
Presidente Lula enfrenta Parlamento mais hostil em 20 anos no início do terceiro mandato

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva assume o terceiro mandato com o Parlamento mais hostil dos últimos 20 anos. A configuração das urnas de outubro desenha um cenário onde cada votação será uma negociação case a case, sem a margem de segurança que marcou gestões anteriores.

Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoramento Parlamentar (Diap) confirma: a base de apoio consistente é a menor de todos os mandatos do petista. O governo terá de costurar maiorias votando a votando, dependendo de um Centrão fortalecido e de uma oposição organizada.

O tamanho do desafio em números

Na Câmara dos Deputados, a radiografia partidária expõe a fragilidade aritmética do Planalto. Dos 513 parlamentares, apenas 124 são classificados como apoio incondicional. Outros 246 oscilam conforme a pauta — o que obriga o Palácio do Planalto a negociar emendas, cargos e texto de cada projeto individualmente.

Do lado oposto, 143 deputados formam bloco de oposição declarada. A equação é simples: sem os votos condicionados, nada passa. No Senado, o quadro replica a dificuldade. A base fiel soma 16 senadores; 31 votam por tema; 34 compõem a trincheira contrária.

  • Câmara: 124 base fiel | 246 condicionados | 143 oposição
  • Senado: 16 base fiel | 31 condicionados | 34 oposição

Pautas explosivas já na largada

A agenda legislativa não espera acomodação. Ainda em fevereiro, o Congresso precisa destravar a PEC da Segurança Pública, que amplia a atuação federal contra o crime organizado. Paralelamente, tramitam a regulamentação do fim da escala 6×1, regras para trabalho por aplicativo, marco regulatório das big techs e a PEC do transporte gratuito nos fins de semana.

Cada um desses temas mobiliza interesses econômicos pesados — do agronegócio ao setor de tecnologia, passando pelo varejo e pelas plataformas de entrega. O governo não tem maioria automática em nenhum deles.

A chave está na eleição das Mesas Diretoras

O primeiro teste real de força ocorre no dia 1º de fevereiro. A escolha dos presidentes da Câmara e do Senado define o ritmo e a prioridade das votações nos dois anos seguintes. Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) buscam a reeleição com discurso de cooperação institucional.

Mas a oposição lançou candidatos próprios: Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) disputam o comando do Senado com apoio explícito da direita. A disputa não é protocolar; quem controla a pauta controla o tempo do governo.

Além do toma lá dá cá: o alerta dos especialistas

Para o cientista político Carlos Melo, a negociação tradicional — liberação de emendas e cargos em troca de votos — não basta. “Terá que recorrer à negociação dentro do Congresso, mas também a buscar na sociedade apoio”, afirma. A receita envolve diálogo direto com setores que historicamente resistem ao PT: agronegócio, mercado financeiro e empresariado industrial.

A leitura é de que a governabilidade depende de uma “ponte para fora da bolha”. Sem respaldo da opinião pública organizada e dos grandes agentes econômicos, a pressão sobre parlamentares condicionados tende a pender para a oposição.

O que observar nas próximas semanas

Três sinais dirão se a estratégia de Lula funcionará: a votação para as Mesas Diretoras (indicador de coesão da base), a tramitação da PEC da Segurança (primeiro teste de conteúdo) e a reação do mercado às primeiras medidas fiscais. Se o governo perder os dois primeiros rounds, a negociação varejosa ficará exponencialmente mais cara.

Para o investidor e o gestor, a mensagem é clara: volatilidade política será a regra, não a exceção. Projetos de longo prazo devem precificar o custo de articulação caso a caso. A reforma tributária, quando chegar ao plenário, será o termômetro definitivo da capacidade real de entrega deste terceiro mandato.