Governistas e líderes do Centrão definiram os próximos dois meses como uma janela decisiva para aprovar pautas estratégicas antes da posse da nova legislatura. A avaliação é unânime: a composição do Congresso eleita em 2026 tende a dificultar negociações que hoje ainda são possíveis.
O cálculo político divide o mandato de Lula em dois tempos distintos. O primeiro se encerra em 4 de janeiro, véspera da posse dos novos parlamentares. Até lá, a ordem é “pilotar o controle das Casas Legislativas” para entregar promessas de campanha e travar disputas de poder que ecoarão por anos.
O xadrez das presidências da Câmara e do Senado
O eixo central da articulação é a manutenção de Hugo Motta (Republicanos-PB) na Câmara e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) no Senado. Ambos foram fiadores da reeleição de Lula e veem nas cadeiras de comando a melhor proteção contra o avanço do PL, hoje a maior bancada da oposição.
A eleição para o comando das Casas acontece em fevereiro de 2027. Com o apoio do Planalto, Motta e Alcolumbre controlam a liberação de emendas e a distribuição de cargos — moedas de troca essenciais para construir maiorias. O principal adversário no horizonte é Rogério Marinho (PL-RN), cotado para disputar a presidência do Senado.
Três prioridades do Planalto para este ano
A lista de “obrigatórios” do governo até o recesso é curta, mas de alto impacto institucional e fiscal:
- PEC da Segurança Pública: pronta para votação no plenário do Senado. Travada por tentativa da oposição de incluir a redução da maioridade penal, sua aprovação autoriza a criação do Ministério da Segurança Pública, promessa de campanha de Lula.
- Indicação ao STF: a vaga deixada por Luís Roberto Barroso exige 41 votos no Senado. A rejeição de Jorge Messias (AGU) criou um desgaste com Alcolumbre. O nome da vez é Rodrigo Pacheco, atual ministro do TCU e ex-presidente do Senado, visto como aprovação certa e agrado a Alcolumbre.
- Orçamento 2027 e ajuste fiscal: promessas de campanha exigem espaço fiscal. A base admite que será necessário mexer no arcabouço ou editar uma nova “PEC da Transição” — em 2022, o Congresso autorizou R$ 145 bilhões fora do teto para viabilizar o início do governo.
A pauta do Centrão: reforma eleitoral e endurecimento penal
Enquanto o governo foca na governabilidade, aliados do Centrão querem votar matérias que podem perder viabilidade com o fortalecimento da direita em 2027. Hugo Motta sinalizou preferência por aprovar a PEC da Maioridade Penal ainda em 2026.
O texto em tramitação na Câmara segue a linha defendida por Lula na campanha: redução para 16 anos apenas em crimes hediondos. No Senado, a oposição tentou estender a medida para 14 anos e para todos os crimes.
Outro flanco é a reforma do Judiciário. Discute-se mandato para ministros do STF e a fixação em lei do entendimento de Gilmar Mendes: impeachment de ministros da Corte exigiria 54 votos, não maioria simples. A avaliação é que o debate deve ocorrer agora, com a composição atual, para evitar imposições unilaterais futuramente.
Mudança no sistema eleitoral: a batalha pela sobrevivência partidária
Presidentes de partidos do Centrão reúnem-se esta semana para debater o fim do sistema proporcional atual. O modelo vigente permite que “puxadores de votos” — como Nikolas Ferreira (PL-MG) — elejam colegas de legendas menores, fenômeno que beneficia siglas com votação concentrada, hoje majoritariamente à direita.
Três alternativas estão na mesa para tentar conter a hegemonia do PL:
- Distrital Misto: estados divididos em distritos; metade das vagas para os mais votados localmente, metade por lista fechada dos partidos.
- Distritão: eleitos os mais votados, sem “puxadores” e sem lista partidária.
- Volta das Coligações: proibidas desde 2017 para proporcionais, permitiriam alianças formais entre partidos pequenos para somar votos.
O que observar daqui para frente
A saída de Rodrigo Pacheco do TCU para assumir o STF — se confirmada — abre uma vaga no Tribunal de Contas. Essa cadeira vira moeda de troca direta na eleição da Mesa Diretora do Senado em fevereiro. Para o setor produtivo e investidores, o sinal de alerta está no Orçamento de 2027: a forma como o governo vai acomodar as promessas ditará a trajetória da dívida e a credibilidade do arcabouço fiscal. A velocidade das votações em dezembro dirá se o Planalto conseguiu costurar a base ou se entrará em 2027 com a agenda travada.
