Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste pernambucano, tornou-se um caso à parte nas urnas de 2026: foi o único município do estado onde Flávio Bolsonaro (PL) superou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos dois turnos. A diferença no segundo turno chegou a 7,2 pontos percentuais.
O senador obteve 30.519 votos (53,60%) contra 26.421 do presidente reeleito (46,40%). Dos 66.115 eleitores aptos, 11,01% não compareceram. O dado chama atenção num estado onde Lula bateu recorde histórico com mais de 4,1 milhões de votos.
O motor econômico que move o voto
A explicação começa no Moda Center. O maior centro atacadista de confecções do Brasil concentra 9.672 boxes e 709 lojas — mais de 10 mil pontos comerciais que atraem compradores de todo o país. A economia local gira em torno da livre iniciativa e do comércio informal, com presença reduzida do Estado.
Para o cientista político Marconi Aurélio, isso molda o eleitorado: “A cultura local enxerga mais prosperidade quanto menos o Estado interfere”. A expectativa de maior peso da iniciativa privada nas decisões públicas fortalece pautas liberais.
O peso do eleitorado evangélico
Outro pilar é a composição religiosa. A cidade tem forte presença de igrejas neopentecostais, segmento que costuma alinhar-se a pautas conservadoras e à direita política. Essa base deu sustentação ao bolsonarismo nas três últimas eleições presidenciais.
O fim da “Taxa das Blusinhas” virou voto
A extinção do Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 — conhecida como “Taxa das Blusinhas” — teve efeito direto no resultado. O que parecia medida de abertura comercial acabou beneficiando a entrada massiva de produtos chineses na região.
O paradoxo: o meio empresarial, historicamente defensor da liberdade econômica, passou a ver na proteção do mercado local uma bandeira. O sentimento na cidade é de que a medida enfraqueceu a competitividade do polo de confecções.
- População (Censo 2022): 98.254 habitantes
- Eleitores aptos no 2º turno: 66.115
- Abstenção: 11,01% (7.281 eleitores)
- Vantagem de Flávio Bolsonaro: 7,2 pontos percentuais
Um padrão que se repete desde 2018
Não é fenômeno isolado. Em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) venceu Fernando Haddad (PT) por 45,64% a 26,24% no primeiro turno — a única cidade pernambucana onde o petista não liderou. No segundo turno, a diferença foi de 53,83% a 46,17%.
Em 2022, mesmo com Lula eleito nacionalmente, o município manteve a preferência pelo candidato de direita: 48,31% contra 46,11% para o petista. A margem estreitou, mas a tendência persistiu.
O contraponto nos grandes colégios eleitorais
Enquanto Santa Cruz do Capibaribe ia na contramão, Lula dominou os cinco maiores colégios do estado:
- Recife: 61,27% a 38,73%
- Jaboatão dos Guararapes: 60,57% a 39,43%
- Olinda: 63,30% a 36,70%
- Caruaru: 59,60% a 40,40%
- Petrolina: 67,78% a 32,22%
O que observar daqui para frente
A combinação de economia baseada em micro e pequenos negócios, forte identidade religiosa e percepção de que políticas federais recentes prejudicaram a competitividade local cria um eleitorado coeso e previsível. Para 2030, a tendência é que o município mantenha seu perfil de “ilha” política no Agreste — a menos que mudanças estruturais na cadeia têxtil ou na composição demográfica alterem o equilíbrio atual.
