Os dez brasileiros mais ricos do ranking da Bloomberg viram US$ 15 bilhões sumirem do patrimônio em poucas horas. A fatia dos quatro grandes nomes do setor bancário sozinhos encolheu 18% em um único pregão. O que explica esse terremoto nas fortunas?
A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conquistada por 4,4 milhões de votos contra Flávio Bolsonaro, disparou a reação. O mercado precificou imediatamente o risco de uma política fiscal mais expansionista, o que reduziria o espaço para cortes de juros à frente.
O dia em que o índice de bilionários registrou sua maior queda
Segundo o Bloomberg Billionaires Index, a segunda-feira (26) entrou para a história como o pior dia único desde a criação da lista, em 2012. Até o meio-dia em Nova York, as perdas acumuladas batiam R$ 81 bilhões entre os dez representantes nacionais no top 500 global.
O real acompanhou o movimento e desvalorizou cerca de 9% na mesma sessão. A moeda mais fraca encarece importações e tende a pressionar a inflação, criando um ciclo que o Banco Central precisará monitorar de perto.
Quem mais sangrou no setor financeiro
O impacto não foi uniforme. Veja como a queda se distribuiu entre os quatro principais executivos bancários do ranking:
- André Esteves (BTG Pactual): US$ 4,4 bi (R$ 23,76 bi) — cerca de 30% da fortuna, agora em US$ 11,3 bi
- David Vélez (Nu Holdings): US$ 2,6 bi (R$ 14,04 bi)
- Pedro e Fernando Moreira Salles (Itaú Unibanco): US$ 2 bi combinados (R$ 10,8 bi)
Juntos, os quatro somavam patrimônio líquido de US$ 45 bilhões (R$ 243 bilhões) antes do resultado. Quase um quinto evaporou entre a abertura e o fechamento dos mercados.
A divisão silenciosa no clã mais rico do país
A família Moreira Salles ilustra como o voto não alinha necessariamente o bolso. Dos quatro irmãos, apenas Pedro (67) e Fernando (80) mantêm participação no Itaú. João e Walter venderam suas fatias em 2022 e são apoiadores declarados do presidente eleito.
João, fundador da revista Piauí, publicou artigo durante a campanha criticando executivos que jantaram com Flávio Bolsonaro — Esteves entre eles. Walter, cineasta vencedor do Oscar, também fez oposição pública. Ainda assim, a dupla acumulava perdas de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,48 bi) até o meio-dia, já que seus investimentos concentram-se em ativos sensíveis ao câmbio e ao risco Brasil, como a mineradora de capital fechado e a Alpargatas (dona das Havaianas).
O que observar daqui para frente
A reação de curto prazo já está precificada, mas a direção das fortunas dependerá de duas variáveis: a velocidade com que o novo governo sinaliza compromisso com o arcabouço fiscal e a resposta do Banco Central à desvalorização cambial. Se a inflação reagir mal ao real fraco, o ciclo de corte de juros pode atrasar, mantendo a pressão sobre ações de bancos e fintechs. Para quem tem exposição ao setor, o próximo relatório de inflação e o primeiro discurso de posse do ministro da Fazenda serão os termômetros decisivos.
