Donald Trump classificou a eleição presidencial brasileira como “mais uma eleição fraudada” sem apresentar qualquer indício, mas no mesmo fôlego declarou: “gosto do Lula” e “me dou bem com ele”. A contradição expõe um cálculo pragmático que empresários e investidores não podem ignorar ao avaliar o risco político bilateral.
A declaração que pegou o mercado de surpresa
Na segunda-feira (26), o ex-presidente dos EUA afirmou que o pleito “pareceu muito ruim” para ele, repetindo um roteiro já usado para contestar o próprio processo eleitoral americano. A fala ocorreu menos de 24 horas após a confirmação do resultado pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques.
Trump frisou não ter “tomado partido”, mas a ausência de provas e o timing da crítica geraram ruído imediato. Para o setor produtivo, o sinal é claro: a retórica de fraude segue viva na oposição americana, podendo respingar em acordos comerciais e fluxos de capital.
O aceno inesperado ao Planalto
O contraponto veio em segundos. Ao elogiar o petista — “gosto dele”, “nos damos bem” —, Trump sinaliza que, se eleito, prioriza a relação de Estado sobre alinhamentos ideológicos. Esse pragmatismo já foi observado em sua primeira gestão, quando manteve canais abertos com governos de espectros opostos.
Para o Palácio do Planalto, a menção positiva funciona como um ativo diplomático. Já para a oposição doméstica, o elogio ao rival enfraquece a narrativa de alinhamento automático com a direita americana.
Os números da vitória e o recorde histórico
O segundo turno, realizado no domingo (25), encerrou com margem apertada, mas definitiva. Lula obteve 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
- Comparecimento: Confirmado na noite de domingo pelo TSE.
- Marco histórico: Primeira vez que um candidato vira o primeiro turno e vence (Lula ficou em 2º na etapa inicial).
- Recorde pessoal: Às vésperas de completar 81 anos (27/10), Lula torna-se o único presidente eleito quatro vezes pelo voto direto.
A legitimidade do processo, atestada pela Justiça Eleitoral, contrasta frontalmente com a narrativa de “fraude” importada dos EUA.
Impacto direto: o que muda para o empresariado
A volatilidade cambial e a curva de juros futuros reagem a ruídos geopolíticos. A fala de Trump injeta incerteza em três frentes sensíveis:
- Acordos comerciais: Risco de revisão de tarifas ou barreiras não tarifárias sob pressão interna americana.
- Investimento estrangeiro direto (IED): Fundos soberanos e gestoras globais monitoram a estabilidade institucional como pré-requisito.
- Agenda climática e Amazônia: Alinhamento ou atrito com a Casa Branca dita o ritmo de recursos para transição energética.
Mas o efeito mais relevante aparece na previsibilidade de longo prazo.
Por que o pragmatismo deve prevalecer em 2025
Historicamente, a relação Brasil-EUA resiste a ciclos eleitorais. O comércio bilateral superou US$ 80 bilhões em 2023, com superávit brasileiro. Setores como agro, energia e aviação têm interesses estruturais que transcendem discursos de palanque.
Além disso, a dependência americana de minerais críticos (níquel, lítio, terras raras) eleva o Brasil a parceiro estratégico de segurança nacional, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três gatilhos nos próximos trimestres: a posse do novo governo americano (jan/2025), a primeira reunião bilateral de alto nível e a tramitação do acordo Mercosul-União Europeia, onde os EUA atuam nos bastidores. A retórica de campanha costuma ceder lugar à geometria dos interesses — e é nessa geometria que o dinheiro inteligente aposta.
