Metade do país acordou nesta segunda-feira com a sensação de que o mundo acabou. A outra metade comemora uma vitória que o lado derrotado considera uma ameaça existencial. Esse abismo não é novidade: a história ensina que o “fim do mundo” costuma ser apenas o começo de outra coisa.
As urnas fecharam com o país rachado quase ao meio. Pesquisas indicam que a rejeição mútua é simétrica: cada grupo enxerga o outro como “pior”, moralmente inferior. Cerca de 20% dos eleitores sequer compareceram ou anularam o voto, ampliando o vácuo no centro. O resultado imediato é um clima de luto coletivo para 50% da população que será governada por quem jamais escolheria.
O dia em que Roma “morreu” e o mundo continuou
Em 24 de agosto de 410, os visigodos invadiram Roma após 800 anos de muralhas intocadas. São Jerônimo, testemunha ocular, decretou: “O mundo pereceu em uma cidade”. A polarização da época era idêntica: pagãos culpavam cristãos pela catástrofe. A culpa pelo colapso sempre recai sobre o “outro”.
Foi nesse caos que Santo Agostinho escreveu o “Sermão sobre a Queda de Roma”. Seu argumento central derruba o derrotismo: quem confunde a própria cidade com o mundo inteiro vive toda derrota como um apocalipse. A pergunta dele ecoa hoje: “O que é Roma, senão os romanos?” — e, por extensão, o que é o Brasil senão os brasileiros?
Duas cidades convivendo no mesmo território
Agostinho descrevia duas cidades sobrepostas. Uma erguida sobre o amor egoísta, voltado para si mesmo. A outra, construída no amor ao próximo e ao bem comum. Impérios e governos são frágeis porque pertencem à primeira cidade; as quedas, paradoxalmente, forçam a renovação da segunda.
Nas palavras do bispo de Hipona: “Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos”. A frase inverte a lógica da guerra cultural: o adversário de hoje é matéria-prima da convivência de amanhã, se houver disposição para construir pontes em vez de muros.
O termômetro da ruptura social
A polarização não vive apenas nos discursos; ela migrou para as relações privadas. Um dado contundente expõe a ferida:
- 52,7% dos brasileiros afirmam já ter se afastado de alguém por divergências políticas.
Isso significa que a fratura institucional invadiu mesas de jantar, grupos de WhatsApp e ambientes de trabalho. A pergunta que fica não é quem venceu a eleição, mas quantas relações sobrevivem ao dia seguinte.
O manual de sobrevivência para o “dia depois”
A história oferece dois caminhos diante das cinzas. O primeiro é usar a derrota para ampliar o rompimento, alimentando o ódio que, nas palavras de Agostinho da Silva, “não dá certo”. O segundo é seguir o conselho do filósofo português radicado na Bahia: buscar em cada pessoa “o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”.
O modelo bíblico de Jó, citado por Agostinho, resume a postura ativa: perder tudo, recusar-se a amaldiçoar e recomeçar. “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”. A qualidade do futuro não depende do ocupante do Planalto, mas da capacidade de cada um de não se definir pelo que odeia.
O que observar daqui para frente
Os próximos meses testarão se a sociedade consegue transformar a frustração em articulação. O termômetro real não será a popularidade do governo, mas a taxa de reconexão entre os 52,7% que se isolaram. Empresários e líderes de equipe devem monitorar o clima organizacional: a polarização externa costuma contaminar a produtividade interna quando não há mediação ativa. A reconstrução do tecido social não é tarefa de Estado — é decisão individual que, somada, vira cultura.
