Cultura

O segredo que líderes usam quando o país racha ao meio…

Líder empresarial reflexivo diante de equipe dividida por tensões políticas no escritório
A polarização política invade o ambiente corporativo e desafia a liderança contemporânea.

Metade do eleitorado acorda governada por quem rejeitou nas urnas. A divisão não é retórica: 52,7% dos brasileiros já cortaram laços com alguém por divergência política. O custo silencioso dessa fratura aparece nos conselhos de administração, nas mesas de negociação e no clima organizacional.

O paralelo histórico que explica o momento atual não vem de analista de mercado, mas de um bispo do século V. Quando Roma caiu em 410, Santo Agostinho ensinou que impérios perecem, mas a cidade real são as pessoas. A lição serve para quem precisa decidir com o país rachado.

O dado que ninguém comenta nas reuniões de diretoria

Pesquisas mostram que cada metade enxerga a outra como “pior” — moralmente, intelectualmente. Não é discordância: é desumanização. Para o executivo, isso significa equipes que não conversam, fornecedores boicotados por lado partidário, clientes perdidos por posicionamento de marca.

A polarização deixou de ser tema de rodapé. Virou variável de risco operacional.

Três camadas do impacto nos negócios

  • Talentos: retenção cai quando o ambiente vira trincheira; recrutamento fica refém de “fit cultural” que mascara viés político.
  • Decisão: dados são filtrados por lente ideológica; cenários otimistas ou pessimistas dependem de quem venceu a eleição.
  • Reputação: silêncio é cumplicidade para uns, neutralidade é covardia para outros. Não há posição segura.

Agostinho escreveu: “Roma, afinal, o que é, senão os romanos?” Traduzido para 2024: a empresa não é o CNPJ, nem a marca, nem o balanço. São as pessoas que decidem, diariamente, se colaboram ou se isolam.

O erro estratégico de quem aposta no “fim do mundo”

Líderes que tratam a derrota do seu lado como apocalipse paralisam a organização. Quem trata a vitória como licença para ignorar a outra metade cria passivo humano que explode no médio prazo. A história de Roma ensina: a pilhagem de 410 não acabou com a civilização. Forçou sua reinvenção.

Agostinho da Silva, o filósofo português que viveu na Bahia, propôs método oposto: buscar em cada grupo “o que existe de comum e abordável, para que se lancem as estradas da paz”. Não é ingenuidade. É gestão de ativos intangíveis.

O que separa resiliência de ruína

Jó perdeu tudo e recusou amaldiçoar. No vocabulário corporativo: manteve a tese de investimento quando o mercado virou contra. Não por otimismo cego, mas por convicção de que ciclos viram. O líder que entende isso não gasta capital político lutando a eleição passada. Gasta construindo a ponte para o próximo ciclo.

O ódio não escala. Não gera EBITDA. Não retém talento. Não atrai capital.

O que observar daqui para frente

Não espere o consenso nacional. Ele não virá. Observe três sinais nos próximos trimestres:

  • Empresas que criam rituais de escuta entre polos opostos — e medem queda em turnover.
  • Lideranças que param de classificar stakeholders como “aliados” ou “inimigos” e passam a mapear interesses sobrepostos.
  • Conselhos que incluem métrica de coesão social no dashboard de risco, junto a câmbio e juros.

A divisão do país é fato. A forma como sua organização navega nela é escolha. A história não premia quem teve razão ontem. Premia quem está operando amanhã.