Economia

O segredo do 4º mandato: R$ 53 bi em promessas e o ajuste inevitável

Lula discursa após vitória no 4º mandato com gráficos de desafio fiscal de R$ 53 bi
Lula eleito para 4º mandato enfrenta ajuste fiscal de R$ 53,6 bi em promessas

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno deste domingo (25) e assume, aos 80 anos, um quarto mandato em janeiro de 2027. A vitória está confirmada, mas a governabilidade depende de uma resposta urgente: como fechar a conta de promessas que já somam pelo menos R$ 53,6 bilhões no Orçamento do primeiro ano.

Economistas, CEOs e líderes setoriais ouvidos pela reportagem são uníssonos: sem ajuste fiscal crível e previsibilidade regulatória, o ciclo de investimentos trava e a recessão se torna cenário base para 2027.

O rombo herdado da própria campanha

O levantamento das contas revela a origem da pressão. Tarifa zero no transporte público nos fins de semana, expansão do Pé-de-Meia para universitários e perdão de dívidas de MEIs compõem a fatura de R$ 53,6 bilhões. O valor pressiona um arcabouço já fragilizado e eleva o ceticismo do mercado financeiro em relação à trajetória da dívida pública.

Para o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, a “virada política” exige, agora, a “virada da economia”. O economista Luiz Fernando Figueiredo, da Jubarte Capital, vai direto ao ponto: o governo herda de si mesmo uma situação “absolutamente insustentável” no curto e no longo prazo. Sem ajuste relevante, projeta recessão “bastante razoável” já no ano que vem.

Previdência e juros: os dois gatilhos de risco

O co-CEO da Seneca Evercore, Daniel Wainstein, aponta a Previdência como prioridade zero. O gasto previsto com INSS no Orçamento de 2026 beira R$ 1,1 trilhão. Adiar a reforma, alerta, compromete o financiamento das próprias bandeiras sociais do governo.

Do lado produtivo, Flávio Augusto da Silva, fundador da Wise Up, vê risco concreto de juros reais mantidos acima de dois dígitos. O cenário penaliza empresas que ainda carregam dívidas contraídas na pandemia e encarece o capital de giro para expansão.

O que o setor produtivo cobra nos primeiros 100 dias

A agenda de reivindicações converge em três eixos: segurança jurídica, estabilidade regulatória e redução do “Custo Brasil”. Confira os pleitos centrais:

  • Portos e logística (ATP): Reforma tributária que incentive modernização da infraestrutura.
  • Combustíveis (Sindicom): Tributação simplificada e investimentos pesados em infraestrutura.
  • Bares e restaurantes (Abrasel): Revisão do fim da escala 6×1, sob pena de empurrar o país à recessão.
  • Crédito e mobilidade (Technobank/iFood): Manutenção do fluxo de crédito como motor da atividade e previsibilidade para quem empreende.

Breno Masi, sócio do iFood, resume o sentimento: “Não podemos continuar tratando quem empreende como se fosse parte do problema”.

O entrave político e a nomeação da Fazenda

O CEO da Zag Work, ex-presidente da Anfavea, destaca um obstáculo estrutural: o Congresso eleito é menos alinhado à visão do Executivo do que em mandatos anteriores. Ajustes impopulares — como contenção de despesas obrigatórias — dependem de articulação política que ainda não foi testada.

Por isso, a escolha do novo ministro da Fazenda funciona como sinalizador imediato. O anúncio rápido do nome é visto como pré-condição para ancorar expectativas de inflação e alongar a curva de juros futuros.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o quarto mandato abre espaço para crescimento com estabilidade ou entra em espiral de dominância fiscal: a velocidade do envio de medidas de contenção ao Congresso, a disposição de enfrentar a reforma da Previdência ainda no primeiro semestre de 2027 e a coerência entre o discurso de posse e a execução orçamentária nos primeiros 100 dias. Investidores e empresários devem monitorar, sobretudo, a taxa de juros real de equilíbrio e a trajetória do resultado primário — são elas que ditarão o custo de capital para o setor privado nos próximos quatro anos.