Cultura

O segredo que ninguém conta sobre polarização: lição de 410 d.C. para 2024

Mapa do Brasil dividido ao meio com ruínas romanas ao fundo simbolizando polarização política e lições de 410 d.C. para líderes empresariais
A polarização que fraturou Roma em 410 d.C. ecoa no Brasil atual, alertando líderes sobre o custo invisível da divisão nas decisões de negócio.

O Brasil acordou dividido ao meio depois das urnas — e 52,7% dos eleitores já cortaram laços com alguém por política. O que a queda de Roma em 410 d.C. ensina a quem lidera negócios hoje?

Metade do país amanhece com sensação de fim do mundo a cada ciclo eleitoral. A outra metade comemora. No meio, um quinto que nem votou. O custo invisível dessa fratura não está nos jornais: está nas reuniões de conselho, nas decisões de investimento adiadas, nas contratações travadas.

O dado que deveria assustar todo gestor

Pesquisas recentes mostram que 52,7% dos brasileiros já se afastaram de alguém por divergência política. Não é retórica: é rede de contatos encolhendo, canais de confiança se fechando, capital social se evaporando. Em ambientes corporativos, isso se traduz em silos internos, decisões mais lentas e risco de talento sair pela porta.

Quando a confiança interpessoal cai, o custo de transação sobe. Contratos precisam de mais cláusulas, parcerias exigem mais garantias, inovação colaborativa trava. O “fim do mundo” não é metafórico — é contábil.

Roma, 24 de agosto de 410: o dia em que o “mundo acabou”

Oitocentos anos sem invasões. Até os visigodos cruzarem os muros. São Jerônimo, testemunha ocular, escreveu: “O mundo pereceu em uma cidade”. A narrativa imediata? Culpar o outro. Pagãos acusaram cristãos. Cristãos acusaram pagãos. O padrão se repete: toda crise gera caça aos culpados, nunca autocrítica.

Santo Agostinho respondeu com o “Sermão sobre a Queda de Roma”. Sua tese central: quem confunde sua cidade com o mundo vive toda derrota como apocalipse. A cidade não são muros, leis ou instituições. “Roma enim quid est, nisi Romani?” — o que é Roma senão os romanos? O que é o Brasil senão os brasileiros?

Duas cidades, uma escolha diária

Agostinho mapeou duas estruturas paralelas que coexistem em qualquer sociedade:

  • Cidade do amor egoísta: poder, status, vitória a qualquer custo, “nós contra eles”.
  • Cidade do amor ao próximo: cooperação, confiança, construção compartilhada.

Impérios construídos na primeira são frágeis. Quedas, paradoxalmente, forçam renovação. “Entre os inimigos escondem-se futuros concidadãos” — a frase mais subestimada da história política.

O efeito direto na sua mesa de decisões

Líderes que operam na “cidade do amor egoísta” tomam decisões reativas: cortam custos no pânico, congelam investimentos por medo, veem concorrentes como inimigos a destruir. Quem opera na segunda identifica oportunidades no caos: aquisições estratégicas, talentos disponíveis, gaps de mercado que outros ignoram.

A história valida: pós-410, Roma não acabou. Transformou-se. As estruturas que sobreviveram foram as baseadas em redes de confiança — mosteiros, guildas, comunidades locais. O paralelo com ecossistemas de inovação resilientes não é coincidência.

Jó, Agostinho da Silva e o manual anti-paralisia

Agostinho cita Jó: perdeu tudo, recusou amaldiçoar a sorte. A lição para 2024? A responsabilidade pelo que vem depois do “fim do mundo” é inteiramente sua.

Agostinho da Silva, filósofo português radicado na Bahia, vivendo a Segunda Guerra, formulou o contra-ataque prático: “Buscar em cada pessoa, povo e crença não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e abordável, para que se lancem as estradas da paz”.

Traduzido para gestão: mapeie interesses convergentes antes de destacar divergências. Negocie a partir do compartilhado, não do contencioso.

O que observar daqui para frente

O próximo ciclo não será definido por quem venceu a eleição passada, mas por quantos líderes escolherem a “cidade do amor ao próximo” como estratégia competitiva. Ódio não escala. Confiança, sim.

Três indicadores para monitorar nos próximos trimestres:

  • Taxa de rotatividade voluntária em empresas com cultura polarizada vs. colaborativas
  • Volume de joint ventures e parcerias inter-setoriais anunciadas
  • Índice de confiança interpersonal (IBGE/FGV) como proxy de custo de transação

Como resumiu o papa Leão XIV, primeiro pontífice agostiniano: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”. A variável de controle não está no Planalto. Está na próxima reunião de diretoria.