Os dois finalistas da eleição presidencial transformaram a reta final do segundo turno em um leilão de benesses fiscais sem precedentes. A conta apresentada pelo Ministério do Planejamento para o pacote do atual presidente ultrapassa R$ 290 bilhões, com impacto direto no Orçamento de 2027 estimado entre R$ 53,6 bilhões e R$ 82 bilhões. O adversário, por sua vez, evita detalhar o custo das próprias propostas — o que, para o mercado, soa como o maior risco de todos.
O pacote do incumbente: números na mesa, incerteza no horizonte
O candidato à reeleição colocou na rua um cardápio que vai do Desenrola 3 à criação do Pé-de-Meia Universitário, passando por subsídios a combustíveis, tarifa zero de ônibus nos fins de semana e perdão de dívidas de bares e restaurantes — este último anunciado como resposta direta a um movimento do oponente.
As projeções divergem. A equipe econômica atual fala em R$ 53,6 bilhões de pressão no ano que vem. A XP Investimentos eleva a conta para até R$ 83 bilhões. A Warren Investimentos, mais conservadora, projeta R$ 43,6 bilhões em 2027, mas alerta: o efeito acumulado até 2030 pode beirar R$ 196 bilhões.
O desafiante: silêncio dos assessores, ruído nas propostas
Do lado da oposição, a estratégia foi vedar a fala dos técnicos. Sem calculadora oficial, o mercado passou a precificar o não-dito. A lista de promessas inclui:
- Congelamento de dívidas bancárias (6 meses para pessoas físicas, 1 ano para MPEs)
- Recriação do Perse (isentas fiscais para eventos), custo estimado em R$ 25 bilhões/ano
- Pix de cashback ao consumidor, pedágio zero para motos, atualização da tabela SUS
- Manutenção integral de pisos constitucionais, reajuste real do salário mínimo e blindagem do Bolsa Família e Pé-de-Meia
- Fim do split payment da reforma tributária — medida que, sozinha, pode reduzir arrecadação ao combater sonegação
Felipe Salto, economista-chefe da Warren, resume: “A grande bomba é o congelamento de dívidas. Sem detalhe, não há como mensurar o impacto no balanço dos bancos e no crédito”.
Populismo ecumênico e o cenário de juros altos
Para Silvia Matos, coordenadora do Observatório de Produtividade do IBRE-FGV, o fenômeno é bipartidário: “Dar dinheiro para todo mundo é mais popular. É para empresário, para a população. Quem não quer?”. Ela destaca a ressurreição do Perse como sinal de um eventual governo refém de setores organizados.
O pano de fundo agrava a equação: juros elevados no Brasil e no exterior reduzem o espaço fiscal e encarecem o serviço da dívida. Cada bilhão prometido hoje exige ou mais receita amanhã — ou cortes em despesas discricionárias já espremidas.
As armadilhas que sobrevivem à posse
Dois fantasmas assombram 2027 independentemente do vencedor. O primeiro é o desmame dos subsídios a combustíveis: em 2023, o governo atual não conseguiu encerrar de imediato a desoneração herdada. O segundo é a pressão por compensação ao setor produtivo caso a escala 6×1 de trabalho seja extinta — pauta que ganhou força no Congresso.
O relatório da XP aponta que apenas a combinação de redução de receitas e eventuais pagamentos de subvenções de combustíveis pode exigir ajustes de R$ 30 bilhões no resultado primário do próximo ano.
O que observar daqui para a frente
Após o domingo, a transição será o termômetro. Sinais concretos virão da composição da equipe econômica, da disposição para revisar promessas incompatíveis com o arcabouço fiscal e da velocidade com que o novo governo apresenta o Projeto de Lei Orçamentária de 2027. Para investidores e empresários, a leitura não é ideológica: é matemática. Quem entregar um Orçamento crível nas primeiras semanas ganha prêmio de risco; quem protelar, paga juros mais altos.
