Tecnologia

Por que executivos brasileiros estão trocando o Vale do Silício pela China

Executivos brasileiros em visita a sede da Tencent em Shenzhen, China
Missões de inovação brasileiras migram do Vale do Silício para polos tecnológicos chineses como Shenzhen e Hangzhou.

A foto da fachada do Google deu lugar ao logo da Tencent, ByteDance ou Alibaba no feed de executivos brasileiros. O eixo das viagens de inovação girou 180 graus: Shenzhen, Xangai e Hangzhou agora atraem mais missões corporativas do que São Francisco.

O movimento acelerou em 2024, quando a China eliminou a exigência de visto para estadas curtas. Desde então, agências especializadas registram procura em massa — e o fenômeno ganhou até nome: Chinamaxxing, a fascinação ocidental pelo que brota do gigante asiático.

O modelo do Vale “ficou enlatado”

In Hsieh, pioneiro na organização dessas imersões, resume a virada: “O novo está no Oriente”. A lógica é simples — o que nasce nos EUA chega rápido ao Brasil via notícias, redes e replicação. Já a inovação chinesa demora mais para cruzar o Pacífico, criando uma janela de vantagem para quem vai até a fonte.

Fabio Neto, sócio da StartSe, confirma: “O brasileiro está assustado. Viu concorrentes chineses surgirem do nada. Agora quer entender o ecossistema antes que ele bata na porta”. A empresa dobrou as missões para a China em 2024 — mais de 20 grupos contra metade disso no Vale do Silício. Neto se mudou para Xangai em setembro para acompanhar a demanda.

Quem vai, quanto custa e o que encontram

Os pacotes partem de R$ 36 mil por seis dias, com passagem, hospedagem, translado e roteiro técnico incluso. A StartSe relata que a maioria das viagens é customizada para grandes corporações levarem executivos e clientes, mas há vagas avulsas em grupos abertos.

Na lista de participantes já aparecem:

  • Ambev, Bradesco, iFood
  • Volkswagen, General Motors, McDonald’s
  • Setores sob pressão direta de rivais chineses no Brasil

Fábio Rua, VP da GM para América Latina, admite: “Precisamos aprender com eles”. A BYD encostou nos emplacamentos da GM em poucos anos, num mercado que já abriga mais de uma dezena de montadoras chinesas. A missão da montadora focou em IA generativa, robótica e meios de pagamento — não em fábrica de carro.

Gigantes que não cabem em um setor só

Alibaba, ByteDance, Tencent, Xiaomi, Baidu. O roteiro padrão foge da lógica setorial tradicional. “A Alibaba é varejo, tecnologia, logística, financeira, meio de pagamento — tudo ao mesmo tempo”, explica Neto. Essa transversalidade obriga executivos a repensar fronteiras de atuação.

In Hsieh vai além: “Quase todo mundo será concorrente ou parceiro de uma empresa chinesa no Brasil”. A presença crescente dessas big techs no país — Alibaba Cloud acaba de anunciar dois data centers locais — torna a imersão estratégia de sobrevivência, não turismo.

Velocidade de implementação impressiona

A Zup, empresa de tecnologia do Itaú, enviou 16 profissionais à China em 2024. O VP Marco Bonas resume: “Eles têm um nível de celeridade absurdo para implementar as coisas”. O time viu times híbridos — humanos e agentes digitais operando juntos — e voltou com a China como “destino obrigatório” no calendário anual, ao lado de EUA e Europa.

O fenômeno não é só brasileiro. A Economist batizou de Chinamaxxing a obsessão global por referências chinesas — inclusive nos EUA, rivais na corrida pela supremacia em IA. Mônica Magalhães, da agência Moovers, estreante no mercado de missões asiáticas, confirma: “As referências que antes vinham dos EUA começam a migrar para as chinesas”.

O que observar daqui para frente

Três sinais indicam se a onda vira maré permanente: (1) ampliação de data centers e centros de P&D chineses no Brasil; (2) surgimento de joint ventures entre grupos locais e asiáticos além do setor automotivo; (3) adoção em larga escala de arquiteturas de “times híbridos” vistas nas imersões. Quem esperar o relatório final pode chegar atrasado na mesa de negociação.