Economia

Renda fixa pode dar prejuízo? O risco invisível que ninguém te conta…

Gráfico de renda fixa caindo ilustra risco de prejuízo por marcação a mercado
A marcação a mercado pode transformar renda fixa "segura" em prejuízo real

A renda fixa não é imune a perdas, mesmo quando a taxa de retorno foi combinada no momento da compra. A oscilação dos preços no mercado secundário — a chamada marcação a mercado — pode transformar um investimento “seguro” em prejuízo real para quem precisa resgatar antes do prazo.

O alerta veio de Mayara Rodrigues, analista de Credit Research da XP, durante o Conexão Investidor 2026 em São Paulo. A especialista desmontou o mito de que “fixo” significa valor garantido a qualquer momento.

O que realmente fica fixo no contrato

Segundo Mayara, o único elemento travado é a taxa de retorno acordada na origem. O preço do título, no entanto, flutua diariamente conforme as taxas de juros futuras sobem ou caem.

Quando a Selic sobe, papéis prefixados ou atrelados ao IPCA perdem valor de mercado. Quem vende nesse momento cristaliza a perda. Quem carrega até o vencimento recebe exatamente o combinado — desde que o emissor honre o compromisso.

Três riscos que convivem na mesma carteira

Além da marcação a mercado, a analista destacou dois outros vetores que surpreendem investidores iniciantes:

  • Risco de crédito: presente em debêntures e CRIs/CRAs sem garantia do FGC; o emissor pode não pagar.
  • Risco de liquidez: títulos pouco negociados podem exigir descontos agressivos na venda antecipada.
  • Marcação a mercado: oscilação de preço que só vira prejuízo real se houver resgate antes do vencimento.

Esses fatores não se anulam. Um título pode ter bom emissor (baixo risco de crédito) e ainda assim registrar perda de 10% no extrato por causa da curva de juros.

Por que a perda no extrato não assusta quem sabe esperar

Mayara foi enfática: ver o saldo cair no dia a dia não significa que o investimento “deu errado”. Para títulos públicos e CDBs com FGC, o fluxo contratual segue intocado.

O problema surge quando o investidor confunde volatilidade de preço com deterioração de crédito. São fenômenos distintos — e exigem respostas diferentes.

Selic a 11,5% em 2027: o cenário que mantém a classe atrativa

A XP projeta taxa básica de 11,5% ao final de 2027. Mesmo com ciclo de queda, o patamar segue elevado em termos históricos e garante prêmio real relevante sobre a inflação.

Para perfis conservadores, a casa recomenda alocação de 90% a 100% em renda fixa, diversificando indexadores (Selic, IPCA+, prefixado) e prazos. A estratégia reduz a dependência de um único cenário macroeconômico.

Poupança vs. Tesouro Selic: a conta que dói no bolso

No painel, uma simulação com Selic a 13,75% mostrou a diferença prática: R$ 10 mil na poupança renderiam cerca de R$ 350 a menos no primeiro ano frente a um CDB a 100% do CDI ou ao Tesouro Selic, já descontado o Imposto de Renda.

O gap existe porque a poupança remunera 70% da Selic + TR quando a taxa está acima de 8,5% ao ano, enquanto o CDI acompanha a Selic cheia. Em cenário de juros altos, a diferença se amplia.

O que observar daqui para frente

O investidor deve monitorar três variáveis: a velocidade de queda da Selic nas próximas reuniões do Copom, a abertura dos spreads de crédito corporativo e a curva de juros reais nos vértices longos. Mudanças bruscas em qualquer uma delas alteram a marcação a mercado da carteira — e testam a disciplina de quem prometeu carregar até o vencimento.