Economia

Minas Gerais vira palco decisivo: o que o ato pró-Flávio Bolsonaro sinaliza para o cenário político-econômico

Multidão em ato pró-Flávio Bolsonaro na Praça da Liberdade, Belo Horizonte
Ato político reúne multidão na Praça da Liberdade em apoio a Flávio Bolsonaro às vésperas do segundo turno.

Uma multidão ocupou a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, na véspera do segundo turno, em demonstração de força que coloca Minas Gerais no centro do xadrez eleitoral. O evento reuniu os principais nomes da direita eleita no último pleito, desenhando um mapa de poder que extrapola as urnas.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) liderou a motociata que partiu da Praça do Papa e terminou no coração da capital mineira, mas foi a ausência de discurso que chamou a atenção de analistas. O gesto silencioso pode indicar estratégia de evitar desgastes na reta final ou simplesmente reverência ao palanque local.

O tabuleiro mineiro e seus jogadores de peso

A concentração funcionou como uma posse informal da nova configuração política do estado. Estiveram lado a lado:

  • Nikolas Ferreira (PL), deputado federal mais votado do país;
  • Cleitinho Azevedo (Republicanos), governador eleito de Minas;
  • Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador eleito de São Paulo;
  • Romeu Zema (Novo), reconduzido ao comando do Executivo mineiro.

Essa aliança suprapartidária — PL, Republicanos, Novo — sugere uma base de governabilidade robusta para os próximos quatro anos, com reflexos diretos em pautas tributárias, infraestrutura e ambiente de negócios.

Por que Minas dita o ritmo do Brasil

Não é exagero de campanha: desde a redemocratização, o candidato mais votado em território mineiro chegou à Presidência. O estado funciona como um “espelho” demográfico e econômico do país, concentrando diversidade regional, industrial e agrária em proporções semelhantes à média nacional.

Estudiosos classificam Minas como “estado pêndulo” justamente por não ter fidelidade ideológica fixa. Oscilou entre Lula (2002, 2006), Aécio (2014), Bolsonaro (2018) e, no primeiro turno de 2022, deu vantagem ao petista. O segundo turno, portanto, virou disputa voto a voto.

O cálculo do eleitorado evangélico e do agronegócio

Dois blocos explicam a virada de chave no estado. O eleitorado evangélico, crescente nas periferias metropolitanas e no interior, migrou em bloco nas últimas semanas. Já o agronegócio — responsável por 30% do PIB mineiro — consolidou apoio após sinalizações de desburocratização fundiária e defesa do marco temporal.

Pesquisas internas das campanhas apontavam, até sexta-feira, diferença de até 5 pontos percentuais a favor do ex-presidente no estado. A margem, porém, considera abstenção alta nas regiões metropolitanas, variável que pode inverter o placar.

Riscos e oportunidades para o setor privado

Para investidores, o cenário pós-eleição em Minas apresenta três eixos de atenção:

  • Reforma tributária estadual: Zema promete simplificar ICMS no primeiro semestre de 2023;
  • Parcerias público-privadas: Carteira de R$ 40 bi em projetos de infraestrutura depende de alinhamento federal-estadual;
  • Segurança jurídica: A composição da ALMG (Assembleia Legislativa) terá maioria alinhada ao governador, reduzindo ruídos regulatórios.

Por outro lado, a polarização acirrada eleva o risco de paralisia legislativa no Congresso Nacional, onde a bancada mineira — a segunda maior — costuma votar em bloco.

O que observar nas próximas 72 horas

O desfecho nas urnas domingo definirá qual das duas matrizes econômicas prevalecerá: a de expansão do gasto público com viés distributivo ou a de contenção fiscal com abertura a capital privado. Minas, mais uma vez, será o termômetro.

Acompanhe a apuração nas regiões do Vale do Aço, Triângulo Mineiro e Zona da Mata — territórios onde a diferença de 2018 superou 20 pontos e que, este ano, aparecem empatados tecnicamente. É ali que o próximo ciclo de investimentos no estado será definido.