Pesquisas em 34 países revelam uma divisão geográfica inesperada: nações em desenvolvimento abraçam a inteligência artificial com otimismo duas vezes maior que Estados Unidos e Europa. O dado contraria o discurso dominante no Vale do Silício — e aponta para onde o capital e o talento podem migrar nos próximos anos.
Enquanto executivos ocidentais alertam para riscos existenciais, varejistas em Lagos e programadores em Hanói veem a tecnologia como ponte para serviços que o Estado nunca entregou. A diferença não é cultural: é estrutural.
O abismo nos números que ninguém comenta
A GlobeScan, a pedido da The Economist, entrevistou amostras representativas em 34 países. No Vietnã e na Nigéria, 87% dos respondentes disseram que a IA melhorará a condição da humanidade. Na Coreia do Sul, o índice chega a 65%.
Nos Estados Unidos, Canadá e França, o saldo é negativo: mais gente teme do que confia. No Reino Unido e Alemanha, a vantagem dos otimistas é magra — abaixo de 10 pontos percentuais.
Um segundo levantamento, da Gallup com a Microsoft em 37 países, confirma o padrão. A disparidade resiste a diferentes metodologias e janelas de coleta.
Por que quem tem menos aposta mais
Três mecanismos explicam a inversão. Nenhum depende de “mentalidade empreendedora” ou otimismo cultural.
- Menos ativos a proteger: na Índia, no Quênia e no Vietnã, a maior parte da força de trabalho atua na informalidade. Não há emprego estável de escritório para ser automatizado — há renda precária para ser ampliada.
- Salto institucional: onde escolas, cartórios e hospitais funcionam mal, um assistente jurídico ou médico no celular substitui o Estado ausente. A IA vira infraestrutura, não ameaça.
- Memória tecnológica recente: Coreia do Sul, Singapura e Taiwan saíram da pobreza em uma geração adotando tecnologia alheia. A população associa inovação a ascensão social, não a disrupção destrutiva.
Payal Arora, autora de From Pessimism to Promise, resume: “O pessimismo é um privilégio de quem pode se dar ao luxo de perder a esperança.”
O paradoxo coreano: medo do emprego, fé no futuro
O caso da Coreia do Sul ilustra a tensão. No Pew Research Center, sul-coreanos empataram com australianos como os que mais esperam perdas massivas de empregos e aumento da desigualdade. Ainda assim, 65% veem impacto líquido positivo.
A explicação está na demografia. A taxa de fecundidade sul-coreana (0,72 em 2023) é a menor do mundo. A IA e a robótica são vistas como única via para sustentar a previdência e o cuidado de idosos sem colapso fiscal.
O vendedor de violinos Bae Oh-do, 70 anos, viu a chegada dos primeiros tratores ao campo. “A humanidade avançou muito. Não há como saber de que maneira o mundo vai mudar”, diz. A frase resume o pragmatismo de quem já viveu várias revoluções industriais.
O que o Ocidente erra no discurso
Líderes de laboratórios americanos alternam entre prometer AGI (inteligência artificial geral) e alertar para extinção humana. Políticos europeus regulam antes de entender. O resultado: desconfiança.
Daniel Dobrygowski, autor de Technology Governance, aponta a raiz: “A experiência com redes sociais e gigantes de tecnologia que governos ocidentais não conseguiram controlar molda a percepção atual.”
Na Ásia, o tom é outro. Chefes da Samsung, TSMC ou Huawei falam de casos de uso — logística, manufatura, saúde. O DeepSeek, modelo chinês gratuito, já roda em celulares por toda a África. A Microsoft estima que 1 em cada 10 africanos em idade ativa usou IA generativa no segundo trimestre de 2026.
Censura, dados e a nova geopolítica do conhecimento
Yuen Yuen Ang, da Johns Hopkins, observa: “Os ocidentais historicamente monopolizaram a produção de ideias. A IA põe isso em xeque. Será uma crise apenas para quem perde com a transformação?”
Fora dos EUA e da Europa, restrições a conteúdo gerado por IA são raras. O fluxo de informação segue mais livre — e a adoção, mais rápida.
O que observar daqui para frente
Três sinais antecipam onde a próxima onda de valor será capturada:
- Centros de dados no Sudeste Asiático: Malásia e Indonésia atraem investimento bilionário; protestos locais não viraram barreiras regulatórias.
- Força de trabalho híbrida na Índia: 19% dos trabalhadores formais já usaram IA generativa no 2T2026 (vs. 33% nos EUA), mas a curva de adoção é mais íngreme.
- Política industrial chinesa: Pequim trata IA como infraestrutura estratégica, não como produto de consumo. O entusiasmo da imprensa estatal sinaliza direcionamento de capital estatal.
Para investidores e gestores, a lição é prática: os mercados que mais crescem não são os que debatem ética abstrata, mas os que resolvem problemas concretos com ferramentas disponíveis hoje. A fronteira da adoção real mudou de endereço.
