Um novo filme expõe como a engenharia de raiva sustentou o império de Mark Zuckerberg — e por que a conta de US$ 17 bilhões pode ser apenas a primeira parcela. A estreia de “O Outro Lado das Redes” desloca o foco do fundador para a delatora Frances Haugen e o repórter Jeff Horwitz, revelando que a opacidade não é um defeito, mas o modelo de negócios.
A pergunta que fica: quanto tempo mais os investidores aceitarão o risco regulatório de uma caixa-preta com 3,64 bilhões de usuários?
O produto não é a rede, é a indignação
Diferente de “A Rede Social”, que romantizava a origem, o longa de Aaron Sorkin mostra a engrenagem madura: o algoritmo priorizou “rage baits” — conteúdos sensacionalistas desenhados para provocar fúria — porque a métrica suprema era o tempo de tela.
A escolha técnica teve efeitos colaterais documentados:
- Crescimento de grupos extremistas;
- Crise de saúde mental entre adolescentes;
- Recrutamento digital por cartéis de drogas.
Para o executivo que olha o balanço, o engajamento virou passivo oculto: cada minuto a mais no feed aumenta a probabilidade de um processo bilionário.
Por que só sabemos disso por vazamentos?
O roteiro escancara uma realidade incômoda: a transparência da Meta é reativa, nunca proativa. Os Facebook Files, publicados pelo Wall Street Journal em setembro de 2021, forçaram a mudança de nome para Meta semanas depois.
Sem a quebra de confidencialidade — protegida por contratos que vigiam até aplicativos de relacionamento dos funcionários —, o público saberia apenas a versão oficial: “falhas técnicas globais”. No Brasil, um vazamento similar provou que erros de moderação beneficiaram um candidato à presidência em detrimento de outro.
O pêndulo ideológico de Menlo Park
A moderação de conteúdo oscila ao ritmo do ciclo eleitoral americano. Após o ataque ao Capitólio, a conta de Trump foi bloqueada e o alcance político, reduzido. Com o retorno do republicano à Casa Branca em 2025, a empresa desmantelou checagens, flexibilizou discurso de ódio e restaurou a prioridade para posts políticos.
“Nada é mais mercadológico do que a falta de coerência ideológica”, resume o cientista político Felipe Gretschischkin. Para o acionista, isso sinaliza risco de governança: a plataforma muda as regras do jogo conforme o vento regulatório, não por princípio.
A fatura chegou: US$ 17 bi e o fim do scroll infinito
As reportagens de Horwitz detonaram 47 ações coletivas nos EUA. Em agosto, 29 delas fecharam acordo com números que exigem atenção:
- Multa: US$ 17 bilhões;
- Mudanças de produto: fim da rolagem infinita e bloqueio noturno para menores de idade;
- Precedente: Instituto Alana pede ao MP brasileiro a replicação das medidas baseada no ECA.
Apesar do montante, a big tech mantém lucros trilionários e supervisão inferior a setores como bancário ou farmacêutico.
O que observar daqui para frente
O STF brasileiro já exige relatórios de transparência, preenchendo o vácuo legislativo. Nos EUA, a ausência de lei federal mantê as big techs em zona cinzenta, mas a jurisprudência das ações coletivas cria de facto um novo padrão de compliance.
Para quem aloca capital: monitore a implementação das travas de segurança (scroll, bloqueio noturno) e a adesão a elas fora dos EUA. A próxima onda de litígios não virá do que o algoritmo faz, mas do que ele deixa de fazer para proteger usuários vulneráveis. A conta de 2024 pode ser apenas o sinal de partida.
