O novo filme de Aaron Sorkin troca Mark Zuckerberg por uma delatora e um repórter para provar que, sem documentos vazados, o público não saberia como o algoritmo escolhe a raiva como moeda de troca. A estreia de O Outro Lado das Redes escancara uma engrenagem que impulsiona extremismo e lucro bilionário às custas da saúde mental de jovens. Mas a transparência forçada na Justiça americana conseguirá atravessar a fronteira?
Do protagonista bilionário à fonte anônima
Dezesseis anos separam A Rede Social deste lançamento. No primeiro, o gênio da programação ditava o ritmo. No atual, a cientista de dados Frances Haugen e o jornalista Jeff Horwitz (Wall Street Journal, Pulitzer pela série Facebook Files) carregam a narrativa. A mudança de foco não é apenas estética: ela reflete a incapacidade de acessar o interior das corporações por vias oficiais.
A trama abre com um diretor de relações públicas fictício alertando funcionários sobre jornalistas em aplicativos de relacionamento. O recado é claro: o contrato de confidencialidade protege segredos comerciais, mas blinda a operação de 3,64 bilhões de usuários ativos no ecossistema Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp).
O motor da indignação: como o “rage bait” virou política de produto
O filme detalha a escolha algorítmica deliberada: priorizar engajamento a qualquer custo. O resultado prático é a amplificação de “rage baits” — conteúdos sensacionalistas, muitas vezes falsos, desenhados para provocar fúria. Segundo os documentos expostos por Haugen, essa arquitetura esteve diretamente associada a três consequências graves:
- Crescimento de grupos extremistas organizados na plataforma;
- Agravamento de quadros de ansiedade e depressão entre adolescentes;
- Recrutamento de jovens por cartéis de tráfico de drogas.
O paradoxo final do roteiro é cruel: enquanto o jornalismo ganha contornos heroicos ao expor a máquina, os dados mostram que mais pessoas se informam pelo feed do que por veículos noticiosos tradicionais.
O preço do silêncio: US$ 17 bilhões e o fim da rolagem infinita
A pressão das reportagens de Horwitz, publicadas em 13 de setembro de 2021, precipitou a mudança de nome para Meta semanas depois. Mais importante: motivou 47 ações coletivas nos EUA focadas na proteção infantil. Em 26 de agosto (data do acordo), 29 delas resultaram em um acerto histórico:
- Multa de US$ 17 bilhões;
- Fim da rolagem infinita para menores;
- Bloqueio noturno automático de contas de crianças e adolescentes.
No Brasil, o Instituto Alana já pediu ao Ministério Público que as mesmas medidas sejam aplicadas aqui, baseando-se no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). O advogado João Aguiar resume o cenário: a big tech mantém lucros bilionários sob supervisão infinitamente menor que a de setores como aviação ou bancos.
Brasil na mira: STF cobra o que o Congresso ignorou
A dependência de vazantes não é exclusividade americana. Um vazamento revelado pela imprensa nacional mostrou falhas de moderação que prejudicaram um candidato e favoreceram o concorrente em uma disputa presidencial. Sem os diálogos internos entre engenheiros no exterior e a equipe brasileira, o público teria apenas a versão oficial: “falhas técnicas globais”.
Diante da omissão legislativa, o STF determinou relatórios de transparência obrigatórios. É a tentativa de criar uma prestação de contas que não exista apenas quando alguém arrisca a carreira para entregar documentos a um repórter.
A bússola que gira com o vento eleitoral
A incoerência estratégica da Meta é um capítulo à parte. Em 2021, Zuckerberg bloqueou Trump e reduziu alcance de política no feed. Em 2025, com o retorno do republicano à Casa Branca, desmantelou checagem, flexibilizou discurso de ódio e voltou a priorizar conteúdo político. Para o cientista político Felipe Gretschischkin (Cebrap), “nada é mais mercadológico do que a falta de coerência ideológica”.
Sem regulação vinculante nos EUA — onde ficam as sedes —, a empresa opera com liberdade total para alternar entre “responsabilidade social” e “terra sem lei” conforme o ciclo eleitoral e o humor do acionista.
O que observar daqui para frente
O fechamento do filme — e o do debate em São Paulo — deixa um recado prático para quem negocia, investe ou regula: a autorregulação falhou. O modelo atual exige vazamentos criminosos para gerar accountability. Se o acordo nos EUA (fim do scroll infinito, bloqueio noturno) virar padrão global via pressão do STF e do MP brasileiro, teremos a primeira barreira técnica real contra o desenho viciante. Caso contrário, a próxima grande revelação dependerá, mais uma vez, de alguém disposto a quebrar o NDA.
