Internacional

Índia aposta US$ 4 bi no Brasil para quebrar domínio chinês nos minerais críticos

Lula e Narendra Modi apertando as mãos com fundo de mina de lítio e bandeiras Brasil-Índia
Acordo de US$ 4 bi fortalece parceria Brasil-Índia em minerais críticos para transição energética

A Índia acaba de colocar o Brasil no centro de sua estratégia para escapar da armadilha chinesa nos minerais que movem a economia verde. Com US$ 4 bilhões previstos para aquisição de ativos no exterior até 2031, Nova Déli quer transformar memorandos em minas, usinas de processamento e cadeias industriais completas em solo brasileiro.

O acordo assinado em fevereiro durante a visita de Lula à Índia não é só diplomacia: prevê transferência de tecnologia e processamento local. A pergunta que fica é se o Brasil conseguirá, enfim, deixar de exportar pedra bruta.

O nó chinês que a Índia precisa desatar

Pequim controla hoje 60% da produção mundial de terras raras e 85% do processamento, segundo dados do próprio governo indiano. Para um país que precisa de lítio, níquel, cobalto, grafita, cobre e nióbio para baterias, motores elétricos, semicondutores e defesa, essa concentração virou risco de segurança nacional.

Keshav Chandra, secretário do Ministério de Minas da Índia, resume: “A China tomou a liderança muito antes. Mas não é o fim do mundo. Há espaço para todos prosperarem”.

O problema é que controles chineses de exportação transformaram interrupção de fornecimento em ameaça existencial para quem tenta industrializar.

Missão Nacional: 1.200 pesquisas e 50 ativos no exterior

Lançada em 2025, a Missão Nacional de Minerais Críticos (NCMM) organiza numa única estratégia a busca por jazidas, abertura de minas, processamento, P&D e aquisição externa. As metas são agressivas:

  • 1.200 projetos de pesquisa geológica até 2031
  • US$ 4 bilhões mobilizados para ativos no exterior
  • 50 ativos minerais garantidos fora da Índia
  • Leilões centralizados para 24 substâncias críticas

A estatal Kabil, criada para caçar minerais estratégicos lá fora, já avançou em lítio na Argentina. O Brasil é o próximo alvo declarado.

Por que o Brasil é a peça-chave do tabuleiro

O país lidera as reservas mundiais de nióbio e figura entre os maiores em grafita, níquel, lítio e terras raras. Em fevereiro, dois memorandos foram assinados: um para cooperação em terras raras e minerais críticos, outro para mineração voltada à cadeia do aço.

Chandra afirma que o acordo “deve progredir naturalmente para investimentos significativos, transferência de tecnologia e parcerias em áreas específicas”. Vaishali Sahni, da FICCI e líder do Grupo de Trabalho de Comércio do Brics, reforça: “O objetivo não é apenas explorar o minério e ir embora, e sim agregar valor localmente e processar com o Brasil”.

O teste real: quem processa, manda

“Ter níquel, lítio ou cobalto não significa nada se o país não produz a bateria”, diz Chandra. A frase vale para os dois lados. O Brasil tem o minério; a Índia tem a demanda industrial e capital. O casamento depende de instalar refino, separação e manufatura de componentes no território brasileiro — algo que nunca saiu do papel em escala.

O precedente do etanol dá pista do que é possível. Parceria formal desde 2002, renovada em 2020, rendeu a Global Biofuels Alliance em 2023 (Índia, Brasil, EUA). Em 2024, etanol, combustível sustentável de aviação e renováveis voltaram ao topo da agenda bilateral.

Da mineração à aviação: o padrão “Make in India” no Brasil

Em fevereiro, Embraer e Adani Defence anunciaram linha de montagem do jato E175 na Índia. Não é só venda: fabricação, cadeia de fornecedores, serviços, treinamento. O programa “Make in India” aplicado à aviação brasileira.

Minerais, etanol, aviões — setores distintos, mesma lógica. A Índia quer o que o Brasil tem no subsolo e o que aprendeu a fazer acima dele. “Para ter o mineral, primeiro garante o fornecimento, depois processa na indústria. Queremos alcançar isso em parceria com nações amigas”, encerra Chandra.

O que observar nos próximos meses

O memorando de fevereiro vira contrato quando: (1) leilões de áreas brasileiras atraírem consórcios indiano-brasileiros com cláusulas de processamento local; (2) a Kabil anunciar aquisição de participação em projeto de terras raras ou lítio no Brasil; (3) sair do papel a primeira usina de separação de terras raras em solo brasileiro com tecnologia indiana. Sem isso, continua tudo no papel — e a China segue ditando o ritmo.