Economia

O mapa político do RN e o que ele sinaliza para quem investe no estado

Mapa político do RN mostra divisão eleitoral entre Zona Norte, Parnamirim e Ponta Negra
Carreatas e bloqueio em Ponta Negra revelam racha geográfico que define poder de barganha no estado.

No último sábado antes do segundo turno, as ruas de Natal e da Grande Natal revelaram, em tempo real, a divisão de forças que deve ditar a relação entre o governo estadual e a União pelos próximos quatro anos. De um lado, carreata na Zona Norte e concentração em Parnamirim; do outro, avenida bloqueada em Ponta Negra. O simbolismo geográfico não é detalhe: ele antecipa onde o poder de barganha estará concentrado.

O primeiro turno já havia desenhado o cenário. Lula (PT) venceu em 165 dos 167 municípios potiguares, com 59,7% dos votos válidos — 1,2 milhão de eleitores. Flávio Bolsonaro (PL) levou apenas Parnamirim e Galinhos, somando 34,7% (720 mil votos). A exceção de Parnamirim, polo industrial e logístico da região metropolitana, não passa despercebida por quem monitora o ambiente de negócios local.

Por que a geografia do voto importa para o caixa das empresas

Parnamirim abriga o Aeroporto Internacional Aluízio Alves, o maior hub de cargas do Nordeste, e concentra parques industriais que dependem de infraestrutura federal — BR-101, drenagem, segurança portuária. Galinhos, embora menor, sedia projetos de energia eólica e salineira com financiamento de bancos públicos. Ambos votaram contra a onda majoritária do estado.

Historicamente, municípios alinhados ao Planalto acessam linhas de crédito do BNDES, emendas parlamentares e celeridade em licenciamentos ambientais com mais facilidade. O inverso também ocorre: onde a oposição vence, a negociação passa a ser caso a caso, mais lenta e politicamente custosa.

O que muda na prática a partir de janeiro

Com a reeleição de Lula confirmada nas urnas potiguares, o governador eleito — seja Cadu de Lula (PT) ou outro nome da base — terá canal direto com ministérios-chave: Integração Regional, Transportes, Minas e Energia. Para o setor produtivo, isso se traduz em três vetores:

  • Infraestrutura: prioridade na duplicação da Reta Tabajara e na conclusão do Ramal do Apodi, obras que travam a logística do agronegócio e da fruticultura de exportação.
  • Energia: expansão da malha de transmissão para escoar a geração eólica e solar do interior — o RN já é o maior gerador eólico do país, mas perde receita por gargalos de escoamento.
  • Segurança hídrica: recursos do PAC para adutoras e barragens, essenciais para a perenização da agricultura irrigada no Oeste potiguar.

Mas o efeito mais relevante aparece na relação com os dois municípios dissidentes.

O nó de Parnamirim e a equação do aeroporto

Parnamirim elegeu prefeito do PL em 2024 e agora vota majoritariamente em Bolsonaro. O município sedia o aeroporto de cargas que movimenta 60% das exportações de frutas do estado — melão, manga, uva. A gestão federal do terminal é compartilhada com a Infraero, e investimentos de ampliação dependem de decreto presidencial e aportes do Fundo Nacional de Aviação Civil.

Se a prefeitura e o governo estadual estiverem em campos opostos, a articulação para novos terminais de carga fria, pátio de aeronaves e acesso viário direto à BR-304 pode travar. Empresários do setor já relatam que licenças ambientais estaduais para áreas de expansão do aeroporto tramitam há 18 meses sem definição.

Cenários para o segundo semestre de 2026

Três variáveis definirão o ritmo dos negócios no RN nos próximos meses:

  • Composição da bancada federal: quantos dos 8 deputados e 3 senadores eleitos pelo estado farão oposição sistemática ao Planalto. Hoje, a bancada é majoritariamente governista, mas dois senadores e três deputados são do PL.
  • Orçamento impositivo: emendas de bancada e individuais somaram R$ 420 milhões para o RN em 2024. A execução depende de sintonia entre gabinetes em Brasília e a governadora.
  • Reforma tributária: a transição do ICMS para o IBS/CBS afetará diretamente a arrecadação do estado, que depende de incentivos fiscais para atrair indústrias. A regulamentação federal sairá em 2025; a adesão estadual, em 2026.

O que observar daqui para frente

O empresário que opera no Rio Grande do Norte deve mapear, nas próximas semanas, três sinais concretos: (1) a nomeação de secretários de Infraestrutura e Desenvolvimento Econômico com trânsito em Brasília; (2) a agenda de audiências do governador eleito nos ministérios antes da posse; (3) a disposição da prefeitura de Parnamirim em compor conselhos regionais de desenvolvimento — o Codern e o Conder são fóruns onde decisões de zoneamento e licenciamento saem do papel.

O voto de domingo já foi depositado. A negociação pelo território econômico começa na segunda-feira.