Internacional

Por que Trump silenciou? O segredo que ninguém conta sobre o Brasil…

Donald Trump e bandeira do Brasil com cenário dividido entre privatização e risco fiscal
Análise de Ian Bremmer revela estratégia de Trump na eleição brasileira e dois futuros econômicos para o país.

Ian Bremmer, fundador da Eurasia Group, afirma que o silêncio de Donald Trump na reta final da eleição brasileira foi uma jogada calculada para não unir o eleitorado em torno de Lula. A estratégia muda radicalmente o cenário de risco para quem tem capital exposto no país.

Em entrevista exclusiva, o analista desenha dois futuros distintos para a economia e a geopolítica brasileira. Um deles prevê uma onda de privatizações e alinhamento militar; o outro, um buraco fiscal crescente blindado apenas pela agenda climática. O que vem a seguir define onde o dinheiro inteligente vai se posicionar nos próximos meses.

O silêncio que vale bilhões

Desde o “Liberation Day” de 2 de abril de 2025, quando tarifas globais atingiram o Brasil com força, a Casa Branca manteve a pressão comercial. Mas nas últimas semanas da campanha, Trump parou de falar do país. Não foi descuido.

Bremmer revela que a família Bolsonaro pediu explicitamente para o republicano ficar em segundo plano. O motivo: intervenções recentes de Trump em eleições no Canadá, Austrália e Hungria derrubaram os candidatos que ele apoiava. A interferência explícita viraria presente de grego para a campanha adversária.

Para o investidor, o recado é claro: a relação bilateral não depende mais de tweets presidenciais, mas de canais institucionais profundos — e esses continuam abertos.

O canal Eduardo Bolsonaro: como funciona a engrenagem

A influência do clã Bolsonaro em Washington não é folclore. Ela opera via gabinete presidencial e base MAGA com uma eficácia que surpreende até veteranos da diplomacia. Dois marcos recentes provam o alcance:

  • Sanções Magnitsky: Articulação direta para punir o ministro Alexandre de Moraes e assessores do Planalto.
  • Endurecimento tarifário: Pressão técnica que ajudou a calibrar as alíquotas do “Liberation Day” contra produtos brasileiros.

Essa dinâmica representa uma nova forma de ingerência: não mais declarações públicas de presidentes, mas lobbies contínuos nos bastidores. Para o setor privado, significa que o acesso a Washington passa, cada vez mais, por interlocutores partidários específicos.

Cenário Flávio Bolsonaro: “Escudo das Américas” e minerais críticos

Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer, a mudança de rota é imediata e profunda. O Brasil aderiria ao “Escudo das Américas”, iniciativa de defesa rejeitada pelo governo atual. Na prática:

  • Exercícios militares conjuntos e compartilhamento de inteligência em tempo real.
  • Enquadramento de facções criminosas como organizações terroristas.
  • Abertura acelerada para capital privado em minerais estratégicos (lítio, terras raras, nióbio).

O Congresso de perfil conservador facilitaria reformas fiscais e administrativa — cenário que o mercado já precifica com otimismo. Flávio difere do pai: é articulador político, próximo do agronegócio e da indústria, não um outsider militar.

O custo oculto: A agenda ambiental. Bremmer avalia que a queda do desmatamento na Amazônia, conquista do governo Lula, dificilmente se sustenta. O dano à imagem internacional e a barreiras comerciais verdes (como o regulamento antidesmatamento da UE) seria imediato.

Cenário Lula: O ativo climático não paga a conta fiscal

Na hipótese de reeleição, o gargalo principal é a economia. O crescimento dos gastos obrigatórios e a resistência ao ajuste estrutural mantêm os prêmios de risco elevados. Com um Congresso de oposição, cada votação vira guerra de desgaste.

O contraponto único é a agenda climática. A preservação da Amazônia e a transição energética seguem como o maior ativo diplomático do Brasil, garantindo acesso a fundos verdes e linhas de crédito concessionais que o setor privado sabe valorizar.

Ponto cego comum aos dois lados: Inovação tecnológica. O Brasil está atrasado na corrida de Inteligência Artificial. Um governo de direita tenderia a fechar parcerias mais ágeis com as *big techs* americanas, o que poderia destravar investimentos em infraestrutura de dados e semicondutores.

Democracia, corrupção e o “fim do mundo” que não chega

Bremmer trata com ceticismo as narrativas de ruptura institucional. Nos EUA, previa-se o fim das eleições sob Trump; as instituições prevaleceram. No Brasil, o discurso do “golpe” funciona como motor eleitoral, mas as estruturas do Estado de Direito — Supremo, Congresso, Forças Armadas, Ministério Público — têm mostrado resiliência.

O pano de fundo real é a corrupção sistêmica. Vazamentos recentes no STF, o escândalo do Banco Master e os desdobramentos da Lava Jato revelam um tecido podre que une corporações, finanças e judiciário. O eleitor percebe isso: a rejeição a Lula vem menos de ideologia e mais da sensação de blindagem de aliados. A “terceira via” morreu por falta de musculatura, não de demanda.

A guerra invisível: deepfakes, bots e a conta que virá

O analista é taxativo: a desinformação algorítmica já decide eleições. Deepfakes mostrando usuários de drogas em atos de Lula que nunca aconteceram circularam como fatos. Bots amplificam ódio sem identidade nem responsabilidade.

A solução defendida por Bremmer é dura e direta:

  • Criminalizar a criação e disseminação intencional de *deepfakes* eleitorais.
  • Responsabilizar plataformas pelo que seus algoritmos promovem (violência, mentiras virais).
  • Multas pesadas e prisão para reincidentes; bots não têm direito à liberdade de expressão.

A tecnologia corre mais rápido que a lei. A pressão por regulação estatal virá de todos os lados do espectro político — não por autoritarismo, mas por sobrevivência democrática.

O que observar daqui para frente

Independentemente do vencedor, três variáveis ditarão o preço dos ativos brasileiros nos próximos 180 dias:

  1. Execução fiscal: Se o próximo governo apresenta um arcabouço crível de controle de despesas no primeiro trimestre.
  2. Regulação de plataformas: Qualquer movimento legislativo sobre IA e responsabilidade algorítmica impacta diretamente a valuation das *techs* e a liberdade de operação digital.
  3. Relação China-EUA: A dependência comercial com Pequim não será rompida por nenhum dos lados, mas a adesão ao “Escudo das Américas” (caso Flávio vença) força o Brasil a escolher lado em cadeias sensíveis — 5G, satélites, minerais.

O silêncio de Trump foi apenas a primeira jogada. O tabuleiro real está sendo montado agora, longe dos holofotes, nas salas de reunião onde se decide o custo de capital do Brasil.