Economia

Crise na França: Por que os EUA escapam (e o perigo que ninguém vê)

Gráfico da dívida pública francesa a 119% do PIB com títulos do tesouro em alta
A dívida da França atinge 119% do PIB, pressionando títulos de 10 anos e forçando escolhas fiscais difíceis.

A França vive um acerto de contas fiscal brutal: a dívida pública bateu 119% do PIB — o dobro do teto da União Europeia — e o déficit anual corre a 5,4%. O rendimento dos títulos de 10 anos disparou nos últimos meses, forçando Paris a escolher entre aumentar impostos ou cortar uma rede de proteção social que já irrita a população. O cenário ecoa em Londres e assombra Washington, mas a semelhança para por aqui.

O abismo francês em números

O FMI alertou na semana passada: a dívida combinada do G7 ultrapassará o PIB total do grupo até 2030, feito inédito desde a Segunda Guerra. Desde fevereiro, o juro médio dos títulos longos das sete maiores economias subiu mais de 1 ponto percentual, o maior nível em quase 20 anos. Na França, a conta chegou antes do previsto. O país gasta muito mais com previdência e serviços públicos do que arrecada, e o custo da energia empurrou a inflação e os juros para cima.

“Chegamos a um ponto em que não é mais possível ignorar isso”, resume Peter Taylor-Gooby, da Universidade de Kent. “Se ignorarmos, entraremos em uma crise grave.”

Por que os Estados Unidos não sangram (ainda)

No papel, a situação americana assusta tanto quanto: dívida de US$ 32 trilhões (≈100% do PIB), déficit de 6% e US$ 1 trilhão por ano só em juros — 14% de todo o orçamento federal. Um a cada sete dólares de imposto paga apenas o custo do dinheiro emprestado. A diferença, porém, está no denominador da equação.

  • Moeda de reserva: O dólar domina o comércio global (petróleo, ouro, commodities). A demanda estrutural por títulos do Tesouro mantém os yields baixos mesmo quando o mundo vende bonds.
  • Porto seguro real: Na queda das bolsas da semana passada, investidores correram para Treasuries, derrubando os rendimentos. A França não tem esse colchão.
  • Motor de crescimento: A economia americana é vasta, diversificada e, agora, turbinada por investimentos massivos em inteligência artificial.

Segundo Mark Zandi, da Moody’s Analytics, a IA eleva o potencial de crescimento dos EUA, fazendo a dívida “parecer insignificante em comparação”. França e Reino Unido, estagnados, não têm esse luxo.

O contágio europeu é baixo, mas a “variável X” assusta

O BCE sinalizou que não precisa intervir na França hoje, mas tem munição (compra de títulos) se o contágio aparecer. Déficits de vizinhos como Alemanha e Holanda são menores; alguns projetam superávit. Marine Le Pen já descartou o “Frexit”, e o AfD alemão está longe do poder. O risco sistêmico na zona do euro parece contido.

O verdadeiro gatilho imprevisível vem do outro lado do Atlântico. Em meados de 2025, os EUA batem no teto da dívida novamente. Um Congresso potencialmente democrata terá de negociar com um presidente Trump em fim de mandato. Zandi estima: “Se o limite não for elevado por volta de outubro do próximo ano, surgem outros problemas” — leia-se: calote técnico forçado, mesmo com caixa para pagar.

O que observar daqui para frente

Três frentes ditam o ritmo dos próximos trimestres: a capacidade de Paris aprovar um orçamento de austeridade sem paralisar o país; a trajetória real dos investimentos em IA nos EUA convertendo-se em produtividade e receita fiscal; e, principalmente, o teatro político do teto da dívida americana. Não é a França que deve manter investidores acordados à noite — é a disposição de Washington em honrar seus próprios cheques.