O corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, determinou que Meta e X apresentem em 24 horas o funcionamento interno de seus sistemas de inteligência artificial e moderação de conteúdo político. A decisão cai como uma bomba a dois dias do segundo turno.
O pedido partiu da campanha de Lula (PT), que acusa as plataformas de favorecer Flávio Bolsonaro (PL) e restringir alcance de materiais favoráveis ao petista. Mas o que está em jogo vai muito além de uma disputa partidária.
O estopim: vídeo de MC Cabelinho derrubado pelo Instagram
Na quinta-feira (22), a Meta removeu um vídeo do portal Revelando apresentado pelo cantor MC Cabelinho. O conteúdo abordava a acusação de que Flávio Bolsonaro teria sido funcionário fantasma no gabinete do pai, Jair Bolsonaro, aos 19 anos.
A justificativa da plataforma: violação das regras eleitorais para conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial. Dias antes, um vídeo similar com Fábio Porchat já havia sido derrubado.
O que o corregedor exigiu exatamente
- Detalhamento das regras de IA aplicadas a conteúdo político
- Critérios de distribuição e alcance de publicações eleitorais
- Políticas de veiculação de anúncios de campanha
- Procedimentos de remoção e revisão de postagens
Além disso, Cueva ordenou que a Meta submeta o vídeo de MC Cabelinho à revisão humana e informe os fundamentos concretos para manter ou reverter a remoção. Tudo em 24 horas.
O lado do X: Grok sob suspeita
A representação da coligação petista aponta que o Grok, ferramenta de IA do X, entregaria respostas distintas para solicitações “materialmente equivalentes” sobre as candidaturas. Haveria ainda risco de geração de conteúdo político-eleitoral sem solicitação do usuário.
Se confirmado, o problema expõe uma falha sistêmica: algoritmos que deveriam ser neutros estariam operando com viés político em plena eleição.
Reunião de emergência no TSE
Nesta sexta (23), o presidente do tribunal, ministro Nunes Marques, recebe representantes de X, Meta, TikTok e Kwai para alinhamento final antes da votação de domingo (25). A pauta oficial não foi divulgada, mas o timing não é coincidência.
O corregedor foi cauteloso: os elementos atuais “não permitem concluir que a medida decorreu de classificação equivocada ou de tratamento diferenciado por orientação político-eleitoral”. Mas a proximidade do pleito exige respostas imediatas.
Por que isso afeta seu negócio
Empresas que anunciam, fazem marketing de influência ou dependem de alcance orgânico nas redes precisam entender: as regras do jogo estão sendo reescritas em tempo real. O que vale hoje pode não valer amanhã.
Três pontos de atenção imediata:
- Conteúdos com qualquer uso de IA — mesmo edição de áudio ou legendas automáticas — podem ser sinalizados ou removidos
- A moderação humana está sendo exigida como contrapeso aos filtros automáticos
- Plataformas terão de publicar critérios claros; a opacidade virou risco jurídico
O que observar nos próximos dias
A resposta de Meta e X ao TSE definirá o precedente para como plataformas globais operam em eleições brasileiras. Se cumprirem o prazo com transparência, ganha a previsibilidade. Se protelarem ou enviarem respostas genéricas, o tribunal terá base para sanções mais duras — inclusive multas e ordens de suspensão temporária de funcionalidades.
Para quem usa essas redes profissionalmente, a lição é prática: documente seus processos de criação, guarde prints de configurações de anúncios e evite depender de um único canal de distribuição. A instabilidade regulatória veio para ficar.
