Economia

Tesouro Direto cai forte: o que o IPCA-15 e a pesquisa escondem…

Gráfico mostra queda nas taxas do Tesouro Direto IPCA+ após IPCA-15 abaixo do esperado
Tesouro Direto opera em forte queda com alívio inflacionário e cenário eleitoral indefinido

As taxas do Tesouro Direto abriram em queda generalizada nesta sexta-feira (23), último pregão antes do segundo turno. O movimento reflete a prévia da inflação abaixo do esperado e o empate técnico nas urnas, criando uma janela rara para quem investe no longo prazo.

Mas nem tudo é o que parece: a surpresa baixista tem um “porém” que pode mudar a leitura do Banco Central nas próximas semanas.

O choque nos números: queda de até 26 pontos-base na semana

O Tesouro IPCA+ 2050, referência para o investidor de horizonte longo, recuou de IPCA + 6,51% para IPCA + 6,48% na abertura de hoje. Na semana, a queda acumula 26 pontos-base — saindo de IPCA + 6,74% na sexta passada (16).

Os vencimentos mais longos lideraram o alívio:

  • IPCA+ com Juros Semestrais 2060: -23 pontos-base na semana, para IPCA + 6,50%
  • IPCA+ com Juros Semestrais 2045: -18 pontos-base, para IPCA + 6,58%
  • IPCA+ 2032 (prazo médio): -7 pontos-base, para IPCA + 6,76%

Nos prefixados, o movimento foi mais contido. O Prefixado com Juros Semestrais 2037 caiu 8 pontos-base hoje, para 12,90% ao ano. Na semana, as taxas prefixadas recuaram entre 2 e 11 pontos-base, após terem subido até 18 pontos-base entre quarta (21) e quinta (22).

IPCA-15: a surpresa que veio do céu (literalmente)

A prévia da inflação oficial subiu 0,32% em outubro, bem abaixo da mediana de 0,43% projetada pelo mercado. Em 12 meses, o índice foi a 4,62%, contra 4,73% esperados.

O detalhe que pouca gente destaca: passagens aéreas despencaram 9,24%, revertendo parte da alta de setembro. Energia elétrica residencial caiu 0,89% com a troca da bandeira amarela pela verde. Já Alimentação e Bebidas puxou a alta, com 0,88%.

Para Gustavo Rostelato, economista da Armor Capital, “boa parte da surpresa baixista foi explicada pelo comportamento das passagens aéreas”. Os demais itens não mostraram deterioração adicional, e a leitura não deve forçar revisões relevantes nas expectativas de inflação.

O empate que travou o mercado

O Datafolha da noite de quinta mostrou 50% a 50% nos votos válidos — empate técnico puro. Na rodada anterior, a vantagem era de 51% a 49%. No total, 47% a 46%.

Outras pesquisas divulgadas hoje reforçam a indefinição:

  • Vox Brasil: Lula 50,6% x 49,4% Flávio (antes 51% x 49%)
  • Quaest (quarta): Flávio 45% x 44% Lula

O último debate na TV Globo nesta noite é o derradeiro evento antes da votação de domingo (25).

Cenário externo adiciona pressão

Enquanto o doméstico digere dados e urnas, o exterior não colabora. O petróleo Brent supera US$ 114 o barril, alta de 4% ontem, impulsionado por ataques houthis à Arábia Saudita e rumores de planos militares EUA-Israel contra o Irã pós-eleições americanas de 3 de novembro.

O Treasury de 10 anos avança para 4,98%. Aqui, o dólar abriu em alta de 0,26%, a R$ 5,051. Ontem, o Ibovespa caiu 1,15%, aos 204.120 pontos.

O que observar daqui pra frente

A combinação de inflação corrente mais comportada com incerteza eleitoral máxima cria um cenário assimétrico: se o resultado domingo trouxer clareza fiscal, a curva pode alongar a queda nos vértices longos. Se a disputa se estender ou o discurso pós-urna frustar, o prêmio de risco volta a subir — e rápido.

Para o investidor, a lição prática: evite apostar a carteira num único desfecho. Quem planejava alongar duration no IPCA+ ganhou uma janela de entrada melhor esta semana. O próximo gatilho relevante sai quarta (26), com o Copom e a ata — aí sim, a leitura do BC sobre o IPCA-15 de hoje será testada.