Os sócios do Vasco da Gama vão às urnas nesta sexta-feira para selar o destino da SAF do clube. A assembleia extraordinária aprova ou rejeita a venda para o grupo Almirante Participações, mas a vitória nas urnas não garante a posse imediata da nova gestão.
Uma investigação da Anresf sobre possível conflito de interesse com a presidência do Palmeiras trava a transição e mantém o futuro do futebol vascaíno em suspenso.
Como funciona a votação e o que está em jogo
Ao todo, 7.195 associados estão aptos a votar das 10h às 20h, em modelo híbrido: presencial na sede náutica da Lagoa ou online via link enviado por e-mail, WhatsApp e SMS. Para passar, a proposta precisa de maioria simples — 50% mais um dos votos válidos.
Além da venda, a pauta inclui uma mudança estatutária sensível: a redução da fatia mínima do clube associativo na SAF de 20% para 10%. Se aprovado, o grupo comprador ficará com 90% das ações, deixando o Vasco com participação residual na sociedade que gere o futebol.
O Conselho Deliberativo já deu o aval político no dia 6 de outubro: 175 votos a favor, 26 contra e três abstenções. Esse sinal verde abriu caminho para a decisão final dos sócios hoje.
O entrave que pode adiar a posse do novo dono
Mesmo com o “sim” das urnas, Marcos Lamacchia e Mário Junqueira não assumem o controle operacional de imediato. A Anresf — agência de regulação ligada à CBF — investiga se a estrutura fere o veto a que uma mesma pessoa tenha influência sobre dois clubes.
O entrave é familiar: Lamacchia é filho de José Roberto Lamacchia (dono da Crefisa) e enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras. O regulamento proíbe controle direto ou indireto sobre mais de uma agremiação.
Enquanto a apuração corre, a Anresf já vetou quaisquer negociações entre Vasco e Palmeiras. A Almirante Participações, por sua vez, se compromete a fazer “qualquer adequação” que o órgão determinar enquanto Leila estiver no comando alviverde — mandato que vai até dezembro de 2027.
O discurso de Pedrinho e o aval do Ministério Público
O presidente do Vasco, Pedrinho, classifica o risco de conflito como “zero, zero, zero”. Ele afirma que o clube respeitará integralmente os critérios da CBF, mas não enxerga óbice jurídico na operação.
Do lado judicial, a Almirante carrega um trunfo: parecer favorável do Ministério Público do Rio à homologação do leilão da SAF, realizado pela Justiça em 25 de setembro. A validade do certame, contudo, ainda depende da palavra final da Anresf.
O tamanho do cheque: mais de R$ 2 bilhões em compromissos
Os números do contrato impressionam e explicam o apetite da diretoria vascaína. O investimento total projetado supera R$ 2 bilhões, divididos em pilares claros:
- Futebol: R$ 100 milhões anuais até atingir R$ 500 milhões.
- Infraestrutura: R$ 150 milhões para reformar centros de treinamento do profissional e da base.
- Dívidas e obrigações: Assunção total dos passivos da SAF atual, com cláusula de “capital call” — se faltar caixa para recuperação judicial, tributos ou fluxo de caixa, Lamacchia aporta mais sem diluir sua fatia. Estimativa: cerca de R$ 1,5 bilhão só neste item.
São Januário e as travas de proteção ao clube
O estádio entra no pacote com exclusividade para a Almirante até 2030. O aluguel fixado é de R$ 3 milhões por ano, mais R$ 2 milhões anuais caso haja obras no local.
Para blindar o patrimônio, o contrato traz duas travas rígidas por uma década: proibição de distribuição de dividendos aos acionistas — todo lucro deve ser reinvestido — e vedação à venda da participação societária. Se a Almirante deixar de fazer um aporte obrigatório, o clube recebe procuração para executar a dívida contra a empresa e seus sócios pessoalmente.
O que observar daqui para frente
O desfecho da votação é apenas o primeiro ato. O próximo capítulo decisivo será o veredito da Anresf: se o órgão liberar a operação, a transição começa sob monitoramento; se barrar ou impor condições inviáveis, o Vasco volta à estaca zero com a SAF atual.
Enquanto isso, a gestão Pedrinho precisa equilibrar a expectativa da torcida por reforços com a realidade de um caixa que só será turbinado após a segurança jurídica total. O calendário de 2027, com o fim do mandato de Leila no Palmeiras, surge como data-chave para a dissipação definitiva da nuvem regulatória.
