Economia

O segredo que ninguém conta: estrangeiros blindam R$ 60 bi apostando em virada na Bolsa

Investidores estrangeiros turbinaram as apostas de proteção na Bolsa brasileira nas últimas semanas, elevando em 28% os contratos de opções em aberto do principal ETF do país em Nova York. O movimento sinaliza que o “trade eleitoral” segue vivo — mas com um detalhe crucial: a busca por seguro contra queda explodiu.

O volume total de contratos do EWZ saltou de 9,5 milhões para 12,2 milhões entre 2 e 21 de outubro. A leitura direta? O dinheiro de fora não apenas acredita na alta imediata pós-urna, como está disposto a pagar caro para não ser pego no contrapé.

O que os números revelam por baixo do capô

A composição do posicionamento conta a história real. Das 12,2 milhões de posições em aberto, 8,7 milhões são calls (aposta na alta) e 3,5 milhões são puts (proteção contra queda). À primeira vista, o otimismo domina. Mas a proporção mudou: a relação put/call subiu de 31% para 41% em três semanas.

Traduzindo: para cada 100 contratos de compra, agora existem 41 de venda. Antes do primeiro turno, eram 31. O mercado está mais cauteloso — e disposto a pagar prêmios recordes por essa cautela.

  • Calls em aberto: 8,7 milhões (eram 7,3 mi em 2/out)
  • Puts em aberto: 3,5 milhões (eram 2,3 mi em 2/out)
  • Relação put/call: 41% (subiu 10 pontos percentuais)
  • Vencimentos concentrados: 6 a 20 de novembro
  • Strikes mais negociados: US$ 44 a US$ 51 (ETF fechou a US$ 41,80)

A conta que aponta para 225 mil pontos

Os strikes entre US$ 44 e US$ 51 embutem uma expectativa de alta de aproximadamente 10% no EWZ nas próximas semanas. Considerando o Ibovespa nos 204 mil pontos, isso projeta o índice na casa dos 225 mil — patamar que exigiria uma extensão relevante do rali visto após o primeiro turno.

Marcos Praça, diretor da ZERO Markets, resume: “O investidor estrangeiro está precificando um salto imediato de 10% na bolsa brasileira após o segundo turno”. O problema? Na semana seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa subiu quase 9% e devolveu parte dos ganhos conforme as pesquisas apertaram.

Volatilidade nas alturas: o custo do seguro disparou

Não é só a quantidade de contratos que impressiona. O preço da proteção explodiu. A volatilidade implícita — termômetro do medo no mercado de opções — saltou de 35% para patamares entre 60% e 80% em diversos ativos.

Um gestor de fundo independente, sob condição de anonimato, alerta: “Teve prêmio de opção do índice small caps que subiu dez vezes”. O risco oculto? Se a segunda-feira trouxer alta na bolsa, mas a volatilidade colapsar (o famoso “vol crush”), quem comprou calls pagando caro pode perder dinheiro mesmo acertando a direção.

Estruturas travadas: o jogo dos profissionais

Luciano Sousa, analista CNPI-T e operador de opções nos EUA e Brasil, observa que a maior parte do volume novo está em estruturas travadas — combinações de calls e puts que limitam tanto o ganho quanto a perda. “Está muito parecido com o primeiro turno: direcional para cima, mas tudo com trava”, diz.

Isso explica por que o mercado pode repetir o padrão: forte gap de alta na abertura, seguido de realização nos dias subsequentes. As maiores concentrações seguem nos strikes de US$ 45, 46, 48 e 50 do EWZ.

O termômetro local confirma: hedge subiu 90%

Dados da B3 compilados pela Broadcast mostram que a demanda por puts no mercado doméstico saltou mais de 90% entre o primeiro pregão após o primeiro turno e 20 de outubro. Fundos multimercados lideram o movimento, montando posições que lucram com a alta, mas sobrevivem a uma virada.

Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, resume o cenário binário: “Vitória de Flávio Bolsonaro gera reação positiva, mas menor que a do primeiro turno. Vitória de Lula devolve toda a alta acumulada — e mais”.

O que observar daqui para frente

Segunda-feira (26) abre a liquidação das posições de novembro. Se o resultado confirmar o cenário majoritário, a tendência é de realização parcial nos dias seguintes — o “compre no boato, venda no fato” clássico. Se houver surpresa, a liquidação de posições alavancadas pode amplificar o movimento inicial.

Dois indicadores valem monitorar na abertura: o comportamento da volatilidade implícita (se cai forte, calls perdem valor rápido) e o volume de puts exercidos ou rolados para vencimentos mais longos. Isso dirá se o dinheiro de fora está saindo ou apenas ajustando a proteção para o próximo capítulo.