A Bolsa subiu 15% em dois meses apostando na vitória de Flávio Bolsonaro, mas a dois dias do segundo turno a euforia virou cautela extrema. O Ibovespa fechou a sexta-feira aos 205 mil pontos, doch o cenário que se desenha para a próxima semana pode apagar meses de ganhos em poucas horas.
Gestores ouvidos em levantamento do Citi desenham dois futuros radicalmente opostos — e a distância entre eles supera 20% no seu patrimônio. Entender essa assimetria é o único jeito de não ser pego no contrapé.
O que os números mostram agora
Desde a confirmação das candidaturas, em agosto, o Ibovespa saltou de 178 mil para 205.082 pontos. No mesmo período, o dólar recuou de R$ 5,08 para R$ 4,99. O gatilho forte veio após o primeiro turno: juros futuros despencaram, a moeda americana encostou em R$ 5 e o índice rompeu os 200 mil pontos pela primeira vez na história.
A pesquisa com 73 gestores de fundos multimercados e de ações escancara a bipolaridade do momento:
- Vitória de Flávio: 49% veem alta superior a 5% no Ibovespa; 78% projetam valorização do real entre 2% e 5%.
- Vitória de Lula: 80% preveem queda superior a 5% na Bolsa; 63% esperam desvalorização do real acima de 5%.
Se Flávio vencer: continuação ou “comprar no boato, vender no fato”?
Para Ricardo Pompermaier, da Davos Investimentos, a tendência é de continuidade: juros caindo e Bolsa subindo, impulsionados pela expectativa de ajuste fiscal. O câmbio, porém, tem teto: o cenário externo limita a valorização do real.
Helena Veronese, da B.Side, alerta que parte do movimento já aconteceu. O foco muda para a composição da equipe econômica e a viabilidade dos cortes prometidos. Luccas Fiorelli, planejador financeiro CFP, vê espaço para mais alta, mas em duas etapas: uma imediata, outra entre novembro e dezembro com o anúncio do time econômico. As small caps e setores sensíveis a juros liderariam.
Mas Eduardo Amorim, da Manchester Investimentos, injeta realismo: a melhora recente reflete troca de governo, não mudança de fundamentos. Sem clareza sobre propostas fiscais e capacidade de execução, tanto a queda dos juros quanto uma devolução dos ganhos estão na mesa. Rodrigo Moliterno, da Veedha, completa: realização de lucros é risco real mesmo com vitória. O dinheiro estrangeiro só fica se houver confiança na entrega.
Se Lula vencer: o “choque de realidade” de 15% a 20%
O cenário alternativo assusta pela velocidade. Veronese avisa: a correção pode ser “muito mais forte” que os ganhos recentes, pegando o mercado de surpresa. Fiorelli estima queda de 15% a 20% no Ibovespa, com impacto brutal nas small caps, varejo, construtoras e consumo doméstico — justamente os que mais subiram na aposta de juros baixos.
Moliterno prevê reação intensa na abertura, com investidores correndo para desmontar posições montadas na expectativa de alternância. A liquidez some e a volatilidade explode.
Onde se esconder (ou ganhar) num cenário adverso
Nem tudo é terra arrasada. Exportadoras e ações defensivas ganham tração com a alta do dólar e a busca por segurança. Fiorelli destaca ainda o setor de habitação popular, beneficiado pela continuidade de programas atuais. A rotação setorial será violenta e rápida.
O que observar daqui para frente
O resultado das urnas é só o gatilho. O que define a direção dos ativos nos próximos meses é a capacidade de execução. Três variáveis mandam no jogo:
- Nomes e credibilidade da equipe econômica (especialmente Fazenda e Banco Central);
- Primeiras medidas concretas de ajuste fiscal — não promessas, mas projetos de lei;
- Articulação política no Congresso para aprovar o que for necessário.
Some-se a isso o cenário externo: juros nos EUA, crescimento da China e preço das commodities. No fim, o mercado precifica expectativa, mas paga por entrega. Quem separa ruído de sinal dorme melhor na segunda-feira — e nas semanas seguintes.
