Mais de 290 torres de transmissão caíram no Brasil desde julho, vítimas de ventos que beiram 250 km/h — fenômeno que o ONS admite não ter como evitar sem custos proibitivos. A conta não fecha: reforçar as estruturas exigiria nove vezes mais aço. Enquanto isso, o sistema segura a onda, mas até quando?
O Operador Nacional do Sistema Elétrico confirmou os números nesta quarta-feira (21). O diretor-geral Márcio Rea foi direto: as previsões indicam piora nos próximos meses.
O que está derrubando as torres não é vento comum
Rea explicou o mecanismo: correntes de ar que descem em direções opostas e colidem perto do solo. “É que nem uma explosão. Acaba até torcendo as torres”, disse. O nome técnico é downburst, mas o efeito prático é devastador.
Historicamente, tempestades fortes traziam rajadas de 90 a 100 km/h. O El Niño mudou a régua. Registros recentes mostram picos de 250 km/h — força que nenhuma torre padrão foi projetada para suportar.
Os números que expõem a escala do problema
- 191 torres de 230 kV e 500 kV (linhas de grande porte)
- Mais de 100 torres de 138 kV
- Período: 26 de julho a 21 de setembro
- Regiões mais atingidas: Sul (foco principal) e Nordeste
O caso mais dramático ocorreu no extremo sul do Rio Grande do Sul. Em 6 de agosto, um ciclone extratropical derrubou a linha que abastece Santa Vitória do Palmar e Chuí. Duas torres afundaram na Lagoa Mirim. Rajadas de 132 km/h atingiram 34 dos 72 municípios da área da CEEE Equatorial. Mais de 60 profissionais foram mobilizados só para essa reconstrução.
Por que não reforçam as torres? A conta não fecha
O ONS consultou fabricantes. A resposta: seria necessário nove vezes mais aço por estrutura. “Não é por aí o caminho”, resumiu Rea. O custo tornaria a expansão e manutenção da rede inviável economicamente.
Valter Cardeal, diretor de Operação do ONS, trouxe o contraponto: o sistema tem se mostrado resiliente. “O corte de carga foi muito pequeno, eu diria insignificante.” A estratégia atual é operacional: o operador repassa previsões de tempestades às transmissoras para que deixem equipes de prontidão.
O lado bom: reservatórios cheios e térmicas fora do radar
Nem tudo é prejuízo. As chuvas intensas que acompanham o El Niño encheram as represas. Dados do MME mostram:
- Reservatórios do SIN em 61% da capacidade no fim de setembro (eram 56% em 2023)
- Projeção para outubro: 56,7%
- Sul deve chegar a 88,2%
- Afluência na região está em 228% da média histórica
Resultado: as termelétricas — energia mais cara, acionada quando falta água — devem ficar fora do despacho na maior parte do tempo. “A caixa d’água está cheia”, afirmou Rea. Só devem ser necessárias em picos pontuais de consumo.
O que observar daqui para frente
O cenário desenha um dilema estrutural: a infraestrutura atual não foi feita para o novo regime de ventos, mas a adaptação física é economicamente inviável. A solução, por enquanto, é gestão de risco — previsão, alerta e equipes de resposta rápida.
Para investidores e gestores, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a frequência de eventos extremos acima de 200 km/h, a capacidade de recomposição das linhas em prazos cada vez menores e o impacto tarifário de indenizações e obras de emergência. O prêmio de desempenho do ONS, entregue nesta quarta, sinaliza que a pressão por excelência operacional só vai aumentar.
