Uma nova pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21) coloca Flávio Bolsonaro (PL) com 45% das intenções de voto contra 44% de Lula (PT) em um eventual segundo turno de 2026. A diferença de um ponto mantém a disputa em empate técnico, mas um dado escondido nas entrelinhas muda completamente a leitura do cenário.
O levantamento, realizado entre 17 e 20 de outubro com 2.154 eleitores, tem margem de erro de dois pontos percentuais. Na prática, isso significa que qualquer um dos dois pode estar na frente. A estabilidade na pesquisa estimulada, no entanto, contrasta com um movimento brusco no comportamento do eleitor quando ninguém mostra os nomes dos candidatos.
O termômetro oculto: indecisão dobra e atinge recorde
No voto espontâneo — onde o entrevistado cita o nome sem ver a lista —, Flávio e Lula aparecem rigorosamente empatados com 40% cada. O choque está no salto dos indecisos: passaram de 7% para 14% em apenas uma semana. É uma dobrada rara em tão curto intervalo.
O fenômeno atinge grupos específicos com força incomum:
- Mulheres: indecisão saltou de 8% para 17%.
- Eleitores independentes (nem direita, nem esquerda): os que não sabem em quem votar explodiram de 13% para 31%.
Para Felipe Nunes, diretor da Quaest, esse é “o dado mais impressionante da pesquisa”. A volatilidade no voto espontâneo sugere que a disputa está longe de decidida, apesar da aparente paralisia no cenário estimulado.
Rejeição cai para Lula; Bolsa Família vira trincheira petista
Enquanto a intenção de voto estagna, a imagem do presidente melhora. A rejeição a Lula despencou de 53% para 47% em sete dias. A de Flávio oscilou de 54% para 52%, permanecendo numericamente superior.
O recorte mais favorável ao petista aparece entre beneficiários do Bolsa Família. A vantagem de Lula nesse segmento abriu de 29 para 37 pontos percentuais: ele foi de 60% para 62%, enquanto Flávio caiu de 31% para 27%. Nesse grupo, 68% dizem que não votariam no senador de jeito nenhum; apenas 27% rejeitam Lula.
Paralelamente, a aprovação do governo subiu de 45% para 46%, e a desaprovação recuou de 48% para 47%. Pela primeira vez na série, a avaliação positiva supera a negativa, ainda que dentro da margem de erro.
Para onde migram os 9 milhões de votos “livres”?
Um detalhe estratégico: ambos os candidatos retêm mais de 90% de quem votou neles no primeiro turno hipotético (Lula 95%, Flávio 94%). A batalha real é pelos 6% (cerca de 9 milhões de eleitores) que escolheram outros nomes.
Nesse grupo, Flávio leva vantagem na captação: 43% dizem que votariam nele no segundo turno, contra 37% para Lula. Já entre quem anulou, votou em branco ou não compareceu, o petista lidera: 40% a 36%.
A transferência de votos de candidatos nanicos também sinaliza tendências:
- Eleitores de Augusto Cury: Lula sobe de 34% para 48%; Flávio vai de 30% a 33%.
- Eleitores de Ronaldo Caiado: Flávio dispara de 42% para 57%.
- Eleitores de Renan Santos: Flávio cresce de 40% para 51%; Lula dobra de 14% para 25%.
Medo do retorno vs. medo da continuidade
O “medo do outro lado” segue como motor principal da polarização. Após um empate numérico na rodada anterior (43% a 43%), o temor da volta da família Bolsonaro ao poder voltou a ficar numericamente à frente: 44% citam esse receio, contra 42% que temem mais um novo governo Lula.
Quanto à convicção, o eleitorado parece fechado: 90% dos entrevistados afirmam que a decisão de voto é definitiva. No eleitorado de Flávio, a certeza sobe para 93%; no de Lula, 90%. A janela de mudança é estreita.
O que observar daqui para frente
A pesquisa registrada no TSE como BR-08535/2026 desenha um xadrez de estabilidade macroeconômica, mas com placas tectônicas se movendo por baixo. Dois vetores merecem monitoramento contínuo:
- A trajetória da aprovação de governo: se a curva de alta se confirmar fora da margem de erro, Lula ganha musculatura para reverter o empate.
- O comportamento dos independentes e mulheres no voto espontâneo: a explosão de indecisão nesses grupos — justamente os que decidem eleições — indica que a “guerra de narrativas” das próximas semanas terá peso desproporcional.
Enquanto o placar estimulado não mexer, são os movimentos invisíveis — rejeição, medo, indecisão — que ditarão o ritmo da corrida de 2026.
