O Brasil colocou duas casas paulistanas na lista estendida dos 100 melhores restaurantes do mundo de 2026. O anúncio, feito nesta quarta-feira (21), antecipa a cerimônia principal marcada para 4 de novembro em Lima. Mas a presença do Nelita e do Evvai entre as posições 51 e 100 sinaliza algo maior do que troféus: consolida São Paulo como destino obrigatório no mapa da alta gastronomia global.
A estreia do Nelita direto no 54º lugar chama atenção. Comandado pela chef Tássia Magalhães — eleita a Melhor Chef da América Latina em 2025 —, a casa nasceu em Pinheiros com proposta autoral que parte da tradição italiana para explorar ingredientes brasileiros por meio de massas frescas. A equipe majoritariamente feminina é um detalhe que a premiação costuma valorizar nos bastidores.
O segredo por trás da “cozinha oriundi”
Já o Evvai, na 68ª posição, chega à terceira aparição consecutiva no ranking. O chef Luiz Filipe Souza batizou sua proposta de “cozinha oriundi”: o encontro entre raízes italianas e a biodiversidade brasileira. O menu degustação alterna técnica contemporânea e referências culturais, o que rendeu à casa também a terceira estrela Michelin em 2026.
Ambos ficam em Pinheiros. Não é coincidência: o bairro virou laboratório vivo onde chefs testam limites entre tradição e inovação sem perder a identidade local. O reconhecimento internacional valida esse caminho.
América do Sul ainda tímida, mas crescente
Além dos dois brasileiros, apenas o peruano Mil, do chef Virgilio Martínez em Cusco, aparece na lista estendida — na 95ª posição. O restaurante propõe valorizar ingredientes, comunidades e ecossistemas andinos. Ao todo, a seleção reúne casas de 25 territórios e 36 cidades espalhadas por seis continentes.
- Europa: 20 representantes (maior concentração)
- Ásia: 17 representantes
- América do Sul: 3 representantes
A disparidade geográfica expõe o desafio: a visibilidade global ainda favorece polos tradicionais. Mas a entrada do Nelita como maior estreia sul-americana do ano (superando até o chinês Ling Long, 53º em Xangai) mostra que a balança começa a pender.
Como funciona a escolha — e por que importa
O ranking não nasce de crítica única. Mais de 1.100 especialistas — chefs, jornalistas e profissionais do setor — votam divididos em 28 regiões com equilíbrio de gênero. Pelo menos 25% do colégio eleitoral é renovado a cada ano. A Deloitte audita o processo. Isso reduz viés individual, mas não elimina a influência de redes de contato e visibilidade midiática.
Para o empresário do setor, o selo “50 Best” funciona como ativo de captação: reservas internacionais aumentam, investidores olham com outros olhos, talentos querem trabalhar na casa. O efeito cascata atinge fornecedores, produtores locais e até o turismo gastronômico da cidade.
O que observar até novembro
A lista dos 50 primeiros sai no dia 4, no Teatro Municipal de Lima, com transmissão ao vivo pelo YouTube do The 50 Best (22h no horário de Brasília). A pergunta que fica: algum dos dois paulistanos sobe para o top 50? Historicamente, restaurantes que estreiam na lista estendida costumam levar dois a três ciclos para romper a barreira — mas o momento do Nelita, com chef premiada e narrativa forte, encurta esse prazo.
Enquanto isso, o mercado já se move. Reservas nas duas casas dispararam nas últimas 24 horas. Fornecedores de ingredientes nativos — como pupunha, jambu e cacau de origem — ganham poder de negociação. E a próxima geração de cozinheiros brasileiros ganha referências concretas de que é possível chegar lá sem apagar a própria identidade.
Fique atento: a cerimônia de novembro deve revelar se o Brasil conquista sua primeira entrada no top 50 desde o D.O.M. (em 2014). Se acontecer, o efeito sobre investimentos em gastronomia de alto nível no país será imediato.
