Economia

Petróleo explode exportações: Brasil-China bate US$ 143 bi, mas o boom tem data para acabar…

Navio petroleiro carregando petróleo brasileiro em porto para exportação à China
Exportações de petróleo do Brasil para a China impulsionam comércio bilateral recorde de US$ 143 bilhões

O comércio entre Brasil e China atingiu US$ 143 bilhões nos nove primeiros meses de 2026 — um recorde histórico. Por trás do número, porém, esconde-se uma fragilidade que poucos analistas mencionam: a dependência de uma emergência geopolítica temporária.

O motor do recorde: petróleo brasileiro

As exportações de óleo para os chineses saltaram 49%, totalizando US$ 21,8 bilhões. A China comprou nada menos que a metade de todo o petróleo que o Brasil vendeu ao exterior no período. O produto já responde por um quarto da pauta exportadora brasileira rumo ao gigante asiático, ficando atrás apenas da soja.

O Rio de Janeiro, impulsionado pelo pré-sal, tornou-se o estado que mais exporta para a China. A plataforma P-82, décima unidade de Búzios, deve entrar em operação em 2027 e ampliar ainda mais esse fluxo.

Por que a China correu para o petróleo brasileiro?

O Irã fechou o estreito de Hormuz após ataques de EUA e Israel. Pela passagem circulava mais da metade do petróleo que a China importa por mar. Sem alternativas imediatas, as refinarias chinesas voltaram-se ao óleo brasileiro — mais caro e distante, mas disponível.

O fôlego já está mais curto

Os dados do terceiro trimestre mostram desaceleração. Desde o acordo entre Washington e Teerã em junho, os embarques do Golfo (excluído o Irã) recuperaram 81% do nível pré-guerra. Mesmo com ataques iranianos a petroleiros intensificados este mês, a rota está se normalizando.

Se Hormuz voltar à plena operação, as refinarias chinesas tendem a retomar o óleo mais barato e logísticamente vantajoso do Oriente Médio, da Rússia e dos dutos da Ásia Central — a base do planejamento energético de Pequim.

O alerta da carne bovina

O caso da carne ilustra como Pequim controla o acesso ao seu mercado. Após o Brasil preencher a cota anual da salvaguarda chinesa, os embarques acima do limite passaram a pagar sobretaxa de 55% neste mês. Resultado: em setembro, a China caiu para o quinto lugar entre os compradores da carne brasileira.

O mecanismo é claro: quando interessa, o governo chinês aperta a torneira.

Uma pauta perigosamente concentrada

O Brasil sairá deste ciclo com uma pauta ainda mais focada em dois produtos — soja e petróleo — cujo acesso Pequim consegue restringir quando quer. A vulnerabilidade é estrutural, não conjuntural.

  • Soja: dependência climática e sanitária
  • Petróleo: sensível a rotas marítimas e decisões da OPEP+
  • Carne bovina: sujeita a cotas e sobretaxas unilaterais
  • Frango: 14 frigoríficos de Santa Catarina suspensos por doença de Newcastle

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem monitoramento constante. A normalização de Hormuz — que drenará a demanda emergencial pelo óleo brasileiro. O quinto plenário do Comitê Central do Partido Comunista, a partir de 26 de outubro, focado em “governança plena e rigorosa do partido” e que deve consolidar expurgos recentes às vésperas do Congresso de 2027. E a proposta de controle de exportação de 40 tecnologias — 23 ligadas a IA —, com consulta pública até 15 de novembro, que pode afetar parcerias tecnológicas futuras.

O recorde de 2026 é real. A sustentabilidade dele, não.