Flávio Bolsonaro fechou a porta do Ministério das Relações Exteriores para o próprio irmão. A declaração dada à TV Globo na sexta-feira (16) não deixa margem para dúvidas: Eduardo não será chanceler em um eventual governo do primogênito. O gesto revela uma fratura que, até aqui, a família tentava manter nos bastidores.
Por que o senador arrisca alienar a ala mais radical do eleitorado a seis dias do primeiro turno? A resposta passa por números que a campanha monitora com lupa.
O veto que fala mais que mil acordos
Segundo apuração da jornalista Mariana Sanches, pelo menos três operadores próximos a Eduardo davam a nomeação como certa. Chegavam a listar embaixadores para os postos-chave da Esplanada. A certeza era tal que a negativa pública de Flávio — repetida duas vezes na entrevista a Renata Lo Prete — caiu como balde de água fria no entorno do deputado licenciado.
Um interlocutor do “Zero Três” resumiu o sentimento do grupo a Sanches: “Se de saída ele já rifar o próprio irmão, demonstra que é um presidente fraco e vai ser controlado pelo centrão. Depois disso vai ceder mais em quê? Larga o pai?”
A leitura oposta, no entanto, circula nos gabinetes que orbitam Flávio: erguer uma barreira contra a influência do irmão não é fraqueza. É sinal de que o candidato quer, de fato, governar.
Dois projetos, uma mesma urna
Em abril, esta coluna já mapeava a divergência: Flávio negocia; Eduardo exige submissão. O primogênito passou 16 anos na Alerj aprendendo a arte do toma-lá-dá-cá. Sua estrada ao Planalto depende de ampliar a base para além do bolsonarismo raiz. O caçula, autoexilado nos EUA desde março, opera na lógica do tudo ou nada.
O rastro de atritos é público e mensurável:
- Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado mais votado do país, chamado de “versão caricata” de si mesmo;
- Michelle Bolsonaro e Nikolas acusados de “amnésia” por apoio considerado “aquém do desejável”;
- Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), governador de São Paulo, rotulado como “não é de direita”.
Curiosamente, a lista de desafetos de Eduardo coincide com a de aliados que Flávio mais precisa para virar o jogo.
Quando o irmão vira passivo eleitoral
O padrão se repete: sempre que Flávio sobe nas pesquisas, Eduardo cria um fato político que chama a atenção para si — e constrange o irmão. Em junho, com o governo Trump ameaçando retaliações comerciais por causa do Pix, o deputado licenciado sugeriu colocar o Zelle, sistema privado de transferências entre bancos americanos, na mesa de negociação. Batizou-o de “o Pix dos Estados Unidos”.
Pesquisa Genial/Quaest daquele mês mostrou que 47% dos entrevistados responsabilizavam Flávio pelo tarifaço. O ruído custou caro.
Em julho, o mesmo instituto detectou erosão na direita. Para bolsonaristas instalados perto de Mar-a-Lago, a derrota do irmão mais velho em 2026 “pode até ser bem-vinda” — projetaria Eduardo como única liderança viável do clã para 2030.
O episódio Magnitsky e o medo da bandeira da soberania
Às vésperas do primeiro turno, a campanha de Flávio se irritou com nova investida do núcleo de Eduardo: reativar as sanções da Lei Magnitsky contra ministros do STF. O temor era entregar a Lula, mais uma vez, a bandeira da soberania nacional — tema que mobiliza o eleitorado de centro e até parte da direita não bolsonarista.
Tarcísio de Freitas já havia dado o exemplo em São Paulo: ergueu a cerca do Palácio dos Bandeirantes para bloquear a influência do “Zero Três” no estado. Flávio repete a jogada em escala nacional.
O que observar daqui para frente
Publicamente, Eduardo mantém o discurso de lealdade. Ao SBT News, disse estar “à disposição” e “preocupado com a eleição do Flávio”. As ações, contudo, contam outra história.
Se o senador vencer no domingo, será a despeito do irmão, não por causa dele. O veto ao Itamaraty é a prova mais clara de que Flávio entende o tamanho do risco: um chanceler ideológico, alinhado a uma ala que ataca aliados estratégicos, transformaria o governo em refém de crises permanentes.
Para o eleitor que busca previsibilidade, o recado está dado. Resta saber se a base radical perdoa a “traição” — ou se o racha se alastra para as urnas.
