Justiça

MP apoia recuperação da Ri Happy, mas trava unificação de dívidas e exige perícia

Fachada de loja Ri Happy com logotipo colorido, maior rede de brinquedos do Brasil em processo de recuperação extrajudicial
Loja da Ri Happy, maior rede de brinquedos do país, passa por recuperação extrajudicial com aval do MP-SP.

O Ministério Público de São Paulo deu aval à recuperação extrajudicial da Ri Happy, maior rede de brinquedos do país, mas impôs uma condição que pode mudar o rumo da reestruturação: a realização de perícia técnica para validar a documentação apresentada. A manifestação saiu nesta segunda-feira (20) e coloca a juíza do caso diante de um dilema processual.

Se a magistrada dispensar o perito, o deferimento do pedido segue caminho livre. Caso contrário, a análise detalhada dos números pode atrasar — ou até redesenhar — o plano de renegociação de R$ 827,4 milhões em dívidas.

O que o MP aprovou e o que travou

A promotoria atestou que a Ri Happy cumpriu o quórum mínimo de credores para protocolar o pedido — um terço das classes envolvidas. Também ratificou a solicitação de stay period de 180 dias, blindando a empresa contra execuções e cobranças judiciais enquanto a negociação avança.

Uma vez concedida a recuperação, o grupo terá 90 dias para obter aprovação de maioria qualificada: 50% mais um dos titulares de crédito em cada classe. Até lá, a operação segue funcionando normalmente nas 292 lojas espalhadas pelo Brasil.

O nó da consolidação substancial

O ponto mais sensível da petição inicial era o pedido de consolidação substancial — a unificação de patrimônio e dívidas das sete empresas do grupo em uma única massa, com lista única de credores. O MP disse não, ao menos por enquanto.

O argumento da promotoria cita precedente do STJ: aprovar quórum global sem exame individualizado pode impor sacrifícios a credores de sociedades solventes para cobrir buracos de coligadas deficitárias. No caso, New Toys (importação), PBKids (primeira infância) e Ri Happy (varejo amplo) têm focos distintos, e dívidas cruzadas não bastariam para justificar a fusão patrimonial.

Consolidação processual: o meio-termo aceito

Como alternativa, o MP recomendou a consolidação processual. Na prática:

  • As empresas tramitam juntas no mesmo processo;
  • Mas o quórum de adesão (tanto o inicial de 1/3 quanto o futuro de 50%+1) é apurado empresa por empresa;
  • A consolidação substancial fica reservada para depois da perícia — se ela vier a ser nomeada.

Essa solução preserva a agilidade do processo coletivo sem abrir mão da proteção a credores de cada ente jurídico.

Por que a Ri Happy chegou aqui

O grupo, que fatura cerca de R$ 1,2 bilhão ao ano e emprega 2.600 pessoas, atribui a crise a uma combinação de fatores: juros altos, resquícios da pandemia, mudança de hábitos de consumo, carga tributária pesada e a ascensão agressiva de AliExpress e Shopee.

Dados da Abrinq mostram que importações — majoritariamente chinesas — responderam por 75,8% dos brinquedos vendidos no Brasil em 2025. A concorrência direta com marketplaces transfronteiriços, que operam com regimes tributários diferenciados, espremeu as margens do varejo físico tradicional.

Quem são os maiores credores

A lista de credores revela a exposição do grupo a fundos, bancos e gigantes da indústria do brinquedo:

  • Carlyle: ~R$ 100 milhões
  • Banco do Brasil: R$ 94 milhões
  • Santander: R$ 58,5 milhões
  • Mattel: R$ 54 milhões
  • Hasbro: R$ 50 milhões
  • Sunny Brinquedos: R$ 42 milhões

A negociação com esse conjunto heterogêneo — fundos de private equity, bancos comerciais e fornecedores estratégicos — será o teste real da viabilidade do plano.

O que observar daqui para frente

A decisão da juíza sobre a perícia define o cronograma imediato. Se houver perícia, o laudo técnico pode levar semanas — e suas conclusões sobre a saúde financeira individual de cada empresa do grupo ditarão se a consolidação substancial avança ou morre.

Enquanto isso, o stay period de 180 dias garante fôlego operacional. Para credores e investidores, o sinal a monitorar é a adesão nas primeiras classes a votar: se grandes bancos e fundos aderirem rápido, o efeito manobra arrasta fornecedores menores. Se houver resistência nas classes financeiras, o plano pode precisar de sweetners — como alongamento de prazos ou haircuts diferenciados — antes dos 90 dias regulamentares.

O desfecho da Ri Happy virou caso-teste para o varejo especializado brasileiro sob pressão do e-commerce transfronteiriço. A forma como a Justiça equilibrará agilidade processual e proteção individual de credores pode ditar parâmetros para futuras reestruturações do setor.