O número de trabalhadores afastados pelo INSS devido à ludopatia saltou de 67 para 363 em apenas dois anos, um aumento de 441% desde a regulamentação das apostas online. O dado expõe uma crise silenciosa que está tirando profissionais produtivos do mercado e elevando a rotatividade nas empresas.
Mas o volume de auxílios-doença conta apenas metade da história. O estudo do Ministério do Trabalho revela que a porta de saída definitiva do emprego formal se alargou perigosamente para esse grupo.
O retrato numérico de uma escalada rápida
A regulamentação do setor, em dezembro de 2023, funcionou como divisor de águas. No ano-base da norma, foram 67 concessões de auxílio por incapacidade temporária. No primeiro ano cheio de vigência, 2024, o total mais que dobrou, atingindo 136 casos. Em 2025, o número consolidou-se em 363 afastamentos.
A curva ascendente coincide com a liberação maciça de publicidade das operadoras, permitida pelas novas regras. Para a Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, a associação entre a legalização e o avanço da patologia é estreita, embora a base de dados ainda seja considerada inicial.
Perfil das vítimas: força de trabalho em idade produtiva
A ludopatia não escolhe classe social, mas o recorte previdenciário mostra onde ela bate mais forte no mercado formal:
- Gênero: Homens representam 7 em cada 10 beneficiários.
- Faixa etária: Quase 67% têm entre 30 e 49 anos — o auge da vida profissional.
- Diagnóstico: Exige perícia médica oficial do INSS atestando que o transtorno (classificado pela OMS) impede o exercício laboral.
São profissionais que deveriam estar gerando receita e contribuição previdenciária, mas estão em tratamento psiquiátrico custeado pelo Estado.
O efeito colateral no contrato de trabalho
O dado mais alarmante para gestores e investidores não é o afastamento em si, mas o que acontece depois. A fatia de contratos formais encerrados enquanto o trabalhador estava de licença subiu de 35% (2023) para 42,5% (2025).
Na prática, 4 em cada 10 beneficiários do auxílio por ludopatia perderam o vínculo empregatício ao fim do período analisado. A maioria (cerca de 70%) saiu a pedido ou sem justa causa, seguindo o padrão geral do mercado, mas a velocidade desse desligamento sugere que a instabilidade gerada pelo vício — endividamento, queda de desempenho, absenteísmo — torna a relação de trabalho insustentável.
A subsecretária Paula Montagner ressalta que não há prova estatística direta de que as demissões foram *causadas* pelo vício, mas admite que os indícios apontam para um ciclo de fragilização profissional.
O custo financeiro por trás das estatísticas
Enquanto o INSS arca com os benefícios, a economia real sangra. Only em 2025, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas plataformas reguladas. Desse montante, R$ 36,9 bilhões viraram prejuízo líquido dos apostadores — receita direta das casas.
Estimativas indicam que a proibição recente da atividade pode liberar cerca de R$ 40 bilhões anuais no orçamento das famílias. Para o varejo, a indústria e o setor de serviços, esse dinheiro represado nas bets representa demanda retraída e inadimplência crescente.
O que observar daqui para frente
O cenário permanece fluido. A medida provisória que vetou as apostas online ainda tramita no Congresso e pode ser revertida sob pressão do setor — a ANJL já sinalizou disposição para rediscutir regras de proteção ao apostador.
Para o empresariado, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a evolução dos pedidos de auxílio-doença por transtornos mentais ligados a jogos, o impacto da liberação de renda (caso a proibição se mantenha) no consumo das classes C e D, e os custos de rotatividade e saúde ocupacional em equipes expostas ao endividamento por apostas. O prejuízo não é só do trabalhador; ele chega ao balanço da empresa.
