Duas pescadoras brasileiras foram condecoradas em Roma pela FAO como referências globais em sistemas alimentares sustentáveis. O reconhecimento expõe uma lacuna: o setor que põe proteína na mesa de milhões ainda opera à margem das políticas de crédito e infraestrutura.
Luena Pataxó, 44 anos, e Joana Rodrigues Mousinho, 70, integram a lista de 100 mulheres homenageadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. A premiação avalia impacto direto em segurança alimentar, inclusão social, sustentabilidade ambiental, geração de renda e resiliência comunitária.
Da beira do cais para a mesa de negociação global
Luena nasceu no extremo sul da Bahia. Criança, limpava peixes com os pais. Viúva, trocou o barco pela cata de camarão para sustentar a família. Hoje preside o Comitê de Relacionamento de Pescadores da região e criou o Grupo de Trabalho Indígena Nacional no âmbito do Plano Nacional da Pesca Artesanal.
Joana atua há mais de seis décadas no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma (PE). Foi a primeira mulher a comandar uma colônia de pescadores no Brasil e uma das pioneiras a obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP). Fundou a Articulação Nacional das Pescadoras, movimento que redefiniu a visibilidade política da categoria.
Por que investidores e gestores públicos deveriam prestar atenção
A pesca artesanal responde por cerca de 50% da produção nacional de pescado, segundo dados do Ministério da Pesca e Aquicultura. Emprega direta e indiretamente mais de 3,5 milhões de pessoas, majoritariamente em comunidades costeiras e ribeirinhas de baixa renda.
O setor movimenta uma cadeia que vai do gelo à logística de distribuição, passando por processamento, comércio local e exportação. Ainda assim, o acesso a linhas de crédito específicas, seguro-defeso regularizado e infraestrutura de armazenamento a frio permanece fragmentado.
- Crédito rural: menos de 15% dos pescadores artesanais acessam o Pronaf regularmente.
- Infraestrutura: apenas 3 em cada 10 comunidades pesqueiras possuem cais ou terminal de desembarque adequado.
- Certificação: a rastreabilidade exigida por mercados premium ainda é rara na pequena escala.
O efeito multiplicador da liderança feminina
Estudos da própria FAO indicam que mulheres reinvestem até 90% da renda na família e na comunidade, contra 35% a 40% no caso dos homens. No caso de Luena e Joana, a atuação política ampliou o acesso a direitos previdenciários, participação em conselhos gestores e inclusão em editais de fomento.
Em 2024, Joana recebeu o Prêmio Mulheres das Águas, do Ministério da Pesca, na categoria Pesca Artesanal em Águas Marinhas. Luena levou a pauta indígena para dentro do plano nacional, conectando demarcação territorial a zonas de manejo pesqueiro sustentável.
O que observar daqui para frente
O Plano Safra da Pesca e Aquicultura 2024-2025 prevê R$ 5,2 bilhões em crédito, mas a execução efetiva para o segmento artesanal depende de cadastros atualizados e assistência técnica contínua. A COP30, em Belém, deve colocar a sociobioeconomia amazônica e costeira no centro das negociações climáticas — e a pesca artesanal será vitrine obrigatória.
Para quem gere capital, risco ou política pública: mapear as cooperativas lideradas por essas mulheres não é gesto simbólico. É due diligence de um ativo real, produtivo e subprecificado.
