A dívida bruta do setor público bateu R$ 11,05 trilhões em agosto, engolindo 82,9% de tudo o que o Brasil produz em um ano. O número assusta, mas economistas de todas as correntes alertam: o rombo nas contas é apenas a ponta do iceberg que o próximo governo terá de navegar a partir de 2027.
Mais de 20 especialistas ouvidos — entre ex-ministros, chefes de research e acadêmicos — formam um coro uníssono: sem um choque de credibilidade fiscal imediato, o ciclo de juros altos, dólar pressionado e crédito caro se autoalimenta. A dúvida não é se o ajuste virá, mas quão rápido ele conseguirá virar a chave das expectativas.
O círculo vicioso que trava o crescimento
A mecânica é cruel e bem conhecida: governo gasta mais do que arrecada → endividamento sobe → investidor exige prêmio de risco maior → Selic sobe para conter inflação → crédito fica caro para empresas e famílias → PIB desacelera → arrecadação cai → volta ao início.
Para Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, o sinal precisa vir no primeiro dia de mandato. “Se não houver medida concreta na posse, teremos colapso de expectativas: dólar subindo, juros futuros disparando e bancos travando o crédito”, resume. Felipe Salto, da Warren Investimentos, desenha o roteiro ideal: superávit de 0,3% do PIB no primeiro ano, escalando para 2% ao final do mandato.
Além do fiscal: os quatro gargalos invisíveis
Equilibrar as contas é condição necessária, mas não suficiente. A lista de “deveres de casa” ignorados há décadas inclui:
- Produtividade estagnada: cresceu míseros 0,6% ao ano nos últimos 45 anos (dados FGV). Com o bônus demográfico acabando, crescer sem ganho de eficiência é matemática impossível.
- Endividamento privado: famílias e empresas carregam dívidas caras; pedidos de recuperação judicial explodiram. André Roncaglia (FMI/UnB) chama de “desalavancagem ordenada” o desafio de reduzir isso sem quebrar a atividade.
- Ambiente de negócios: custos logísticos (dependência rodoviária), energia cara e burocracia asfixiam a competitividade, segundo Paulo Feldmann (FEA-USP).
- Geopolítica volátil: equilibrar relações com EUA e China — maior parceiro comercial — enquanto o mundo fragmenta cadeias de suprimento.
O dilema do “tesouraço” impossível
Adriana Dupita (Bloomberg Economics) joga um balde de água fria em soluções simplistas: “Não há medidas óbvias. Um corte bruto estilo ‘motosserra’ não funciona quando 90% das despesas são obrigatórias e metade atrelada ao salário mínimo”. O nó político é duro: mexer em direitos exige apoio do Congresso, Judiciário e sociedade em país desigual onde milhões dependem de transferências.
André Galhardo (Análise Econômica) alerta para o risco do choque recessivo: “O ideal é criar ambiente melhor, não buscar controle fiscal a qualquer custo”. O fantasma de 2015-2016 ronda as projeções.
Juros reais no topo do mundo: o sintoma e a causa
Fábio Gallo (FGV-SP) lembra que o Brasil lidera o ranking global de juro real. “A economia está doente. Inflação persistente, crescimento minguando — começamos o ano falando em PIB acima de 2%, já estamos abaixo”, diz. A equação só fecha se o fiscal abrir espaço para queda da Selic, barateando o capital de giro e o investimento produtivo.
Gustavo Sung (Suno Research) aposta na agenda micro: marcos do saneamento, gás, ferrovias e cabotagem, além de concessões robustas. “Precisamos de crédito mais barato e acessível”, sintetiza.
O que observar daqui para frente
O termômetro dos primeiros 180 dias do próximo mandato será a velocidade da sinalização fiscal e a capacidade de articular maioria para reformas de segunda geração (tributária sobre renda/patrimônio, administrativa, previdenciária). Se o ajuste vier sacrificando infraestrutura, como alerta Otto Nogami (Insper), o país estanca o potencial de crescer amanhã para pagar a conta de hoje.
Para o investidor e o empresário, a métrica-chave não é o déficit nominal, mas a trajetória da dívida/PIB nos relatórios de mercado e a curva de juros futuros. Se a inclinação não ceder até o segundo trimestre de 2027, o cenário base muda de “ajuste gradual” para “dominância fiscal” — e aí o custo de capital trava qualquer plano de expansão.
