O presidente Lula confirmou que o governo negocia com o Banco Central a proibição de oferecer cartões de crédito adicionais sem pedido expresso do cliente. A medida mira o endividamento recorde das famílias e pode alterar a forma como os bancos concedem limites.
A declaração ocorreu durante entrevista ao Flow Podcast, na quinta-feira (1º), e sinaliza uma ofensiva regulatória que vai além da taxa Selic. Mas o que está realmente em jogo para quem usa crédito no dia a dia?
O que o BC já exige hoje
Atualmente, o Banco Central não limita a quantidade de cartões por pessoa. Porém, desde julho de 2024, as instituições precisam de autorização prévia e específica para cada aumento de limite — e não mais uma aprovação genérica no contrato inicial.
O envio ou habilitação de cartões sem solicitação do titular já é vedado. A nova discussão, portanto, endurece a trava: impediria ofertas proativas de “cartão extra” mesmo com consentimento genérico prévio.
Endividamento nos números da campanha
O contexto explica a pressa. O governo lançou a nova fase do Desenrola com até R$ 15 bilhões para comprar carteiras de dívidas atrasadas entre 2 e 4,5 anos. A meta é renegociar R$ 150 bilhões no total, focando em cartão parcelado, rotativo e crédito pessoal.
O rotativo do cartão segue como a modalidade mais cara do varejo, com juros médios acima de 400% ao ano. Cada novo plástico ofertado sem critério amplia o risco de superendividamento — especialmente entre famílias de renda média-baixa.
O xadrez com o Banco Central
Lula tem criticado a Selic mesmo sob a gestão de Gabriel Galípolo, seu indicado à presidência do BC. A taxa básica está em 13,75% ao ano, e aliados do Planalto cobram queda mais agressiva.
A proibição de cartões extras seria uma ferramenta complementar: ataca a oferta de crédito, não o custo do dinheiro. Técnicos do BC avaliam impactos na concorrência e na inclusão financeira antes de definir posição.
Bolsa Família e o timing eleitoral
Na mesma entrevista, Lula defendeu o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, que elevou o piso de R$ 600 para R$ 691. Questionado sobre motivação eleitoreira, argumentou que havia espaço fiscal e autorização orçamentária.
- Benefício mínimo: R$ 691 por família
- Alta real acima da inflação acumulada em 12 meses
- Medida válida até dezembro de 2025, com revisão prevista para 2026
O aumento injeta cerca de R$ 2,5 bilhões mensais na economia, prioritariamente no consumo de bens essenciais. Para o varejo, é fôlego; para o crédito, é sinal de renda mais estável na base da pirâmide.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes merecem acompanhamento direto:
- Resolução do BC: se a proibição virar norma, bancos terão de reformular campanhas de cross-sell e aquisição de clientes.
- Desenrola fase 2: volume de dívidas efetivamente renegociadas dirá se o programa alivia o balanço das famílias ou apenas posterga inadimplência.
- Selic na reunião de março: qualquer sinal de corte antecipado muda a dinâmica de custo de funding para os emissores de cartão.
Para quem gere risco de crédito ou planeja captação, a combinação de regras mais duras na oferta com juros ainda altos cria janela de oportunidade: carteiras mais seletivas, inadimplência potencialmente menor, mas volume originado comprimido no curto prazo.
