O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lançou um desafio direto ao Legislativo: duvida que parlamentares tenham “coragem” de derrubar a medida provisória que proibiu as plataformas de apostas, as chamadas bets. A declaração, dada em entrevista ao Flow Podcast, expõe uma disputa de poder que coloca em xeque o futuro de um mercado bilionário e revela o cálculo político por trás da canetada.
O cálculo por trás da medida provisória
A MP entrou em vigor na última sexta-feira (25) e tem validade de 120 dias. Para se tornar lei permanente, precisa do aval do Congresso. Lula, no entanto, antecipou o desfecho: “Duvido que o Congresso tenha coragem de acabar com ela. Mesmo alguns que são sócios de tigrinho”.
O timing não passou despercebido. A medida foi publicada a nove dias do primeiro turno das eleições municipais. O próprio presidente admitiu que o calendário eleitoral pesou na decisão. “Se eu não acabo e eu não ganho as eleições, jamais ia acabar”, afirmou, ligando a proibição à sua viabilidade nas urnas.
Impacto direto no setor e a hidra das apostas ilegais
Para empresários e investidores do setor, o sinal é de incerteza regulatória extrema. A medida não distingue entre operadores regularizados e clandestinos — atinge a todos.
Lula reconheceu a limitação da canetada: “Cada vez que você regula, aparece mais uma [bet] ilegal”. A declaração sinaliza que o governo enxerga a proibição total como um paliativo, não uma solução definitiva para o vício e o endividamento das famílias.
- Prazo crítico: 120 dias para votação no Congresso (contados a partir de 25/09).
- Cenário base: Manutenção da proibição enquanto não houver marco regulatório robusto.
- Risco residual: Migração em massa para sites hospedados no exterior, fora do alcance da fiscalização imediata.
A carta na manga: Nióbio e a guerra comercial com Trump
Mas a entrevista não parou nas bets. Lula mudou o tabuleiro ao falar de Donald Trump e das tarifas impostas pelos EUA. A resposta brasileira, segundo ele, está no subsolo: o nióbio.
“Ele [Trump] é importador de nióbio, e 60% do nióbio dele é daqui do Brasil”, cravou o presidente. O mineral é insumo estratégico para ligas de aço de alta resistência, essenciais na indústria aeroespacial, automotiva e de defesa — setores onde os EUA não abrem mão de soberania.
A lei da reciprocidade comercial, sancionada recentemente, ainda não foi acionada. Fica como um gatilho guardado na gaveta, pronto para ser disparado se a escalada protecionista avançar.
Minérios críticos: O novo tabuleiro do Brasil
Em setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos. O texto dá ao Estado poder de veto sobre investimentos estrangeiros em áreas consideradas estratégicas, como terras raras, lítio e o próprio nióbio.
A ambição declarada é verticalizar a cadeia: “Queremos fazer chips aqui, celular aqui. Inteligência artificial em português”. Para isso, o governo aposta em uma “revolução na formação de engenheiros e pesquisadores de geofísica”.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem monitoramento contínuo por quem decide capital alocado no Brasil:
- Tramitação da MP das bets: A votação no Congresso será o termômetro real da força do lobby do setor versus a pressão social por regulação.
- Ativação da reciprocidade comercial: Qualquer movimento tarifário adicional dos EUA pode disparar retaliação seletiva sobre minerais críticos.
- Leilões e licenciamento de terras raras: A nova política mineral abre janela para parcerias público-privadas, mas o veto estatal a capital externo adiciona camada de risco jurídico.
O xadrez está posto: de um lado, a moralização do mercado de apostas com viés eleitoral; do outro, a construção de uma potência mineral que ouse desafiar a hegemonia tecnológica chinesa e americana. Para o investidor, a leitura não é ideológica — é de fluxo de caixa, risco regulatório e posicionamento geopolítico.
