Internacional

Brasil e EUA criam força-tarefa contra tarifaço: o segredo da negociação

Ministros Mauro Vieira e Katherine Tai se cumprimentam na reunião do G20 em Milwaukee
Criação de força-tarefa Brasil-EUA para negociar tarifas sobre aço, alumínio e agronegócio

Brasil e Estados Unidos anunciaram a criação de um grupo de trabalho exclusivo para negociar as tarifas que Washington impõe a produtos brasileiros. A medida surge enquanto sobretaxas de até 25% seguem em vigor, pressionando exportadores de aço, alumínio e agronegócio. O que esse canal direto pode mudar para o seu negócio?

O fato: canal direto em Milwaukee

Na quarta-feira (30), à margem da reunião de ministros do Comércio do G20 em Milwaukee, os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Mdic) selaram o acordo com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer. O governo americano prometeu enviar, nas próximas semanas, um documento definindo o escopo das negociações — incluindo barreiras tarifárias e não tarifárias.

Essa é a primeira estrutura formal dedicada exclusivamente aos entraves bilaterais desde que as sobretaxas entraram em vigor, em julho. Até então, as conversas ocorriam em fóruns multilaterais ou em encontros esporádicos.

Impacto direto: quais produtos sofrem hoje

As tarifas atuais atingem fatias relevantes da pauta de exportação. Veja o que está em jogo:

  • 25% adicionais sobre itens selecionados com base na Seção 301 da legislação comercial americana (aço, alumínio e derivados).
  • 10% a 12,5% extras para países enquadrados na política de trabalho forçado — regra que também captura parcelas do agronegócio brasileiro.

Juntas, essas medidas elevam o custo de entrada nos EUA e reduzem a competitividade de setores que respondem por bilhões de dólares em receita anual.

Contexto: a escalada que levou ao grupo

A criação do grupo não foi um gesto isolado. Em 21 de agosto, os presidentes Lula e Trump conversaram por telefone e determinaram a retomada dos contatos técnicos. Dez dias depois, uma reunião virtual alinhou os primeiros parâmetros. O encontro presencial em Milwaukee consolida essa trajetória e sinaliza que ambos os lados veem espaço para um entendimento mais amplo — possivelmente um acordo comercial setorial.

O Mdic classificou o diálogo como “construtivo” e reforçou que a defesa dos interesses brasileiros continua no centro da estratégia.

Projeções: o que esperar nas próximas semanas

O próximo passo concreto é a entrega da proposta americana. A partir desse documento, o grupo de trabalho deverá:

  • Definir cronograma e métricas para redução ou eliminação das sobretaxas.
  • Discutir barreiras não tarifárias — como certificações sanitárias, regras de origem e compras governamentais.
  • Avaliar a inclusão de setores hoje fora das listas de exceção.

Não há prazo fixado para conclusão, mas a proximidade da reunião ministerial do G20 (30 de setembro a 1º de outubro) sugere vontade política de mostrar avanços antes do fim do ano.

O que observar daqui para frente

Empresários e investidores devem monitorar três variáveis: a publicação do termo de referência americano, a reação do Congresso dos EUA a eventuais concessões e a capacidade do Brasil de apresentar contrapartidas que não abram precedentes indesejados em outros fóruns. O grupo de trabalho é a melhor janela de oportunidade dos últimos dois anos — mas seu êxito dependerá da velocidade com que propostas técnicas virarem decisões políticas.