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Última semana de campanha: o que os presidenciáveis sinalizam para a economia

Na reta final da corrida ao Planalto, os candidatos intensificam agendas e revelam prioridades que podem redesenhar o ambiente de negócios nos próximos quatro anos. A segunda-feira (28) expôs fissuras claras entre projetos fiscais, tributários e regulatórios. O que está em jogo vai muito além do palanque.

O dia foi marcado por propostas concretas de controle de gastos, acenos ao setor produtivo e promessas de reorganização do Estado. Mas nem todos os nomes entraram em campo — e a ausência também fala.

O sinal fiscal que o mercado esperava

Ronaldo Caiado (PSD) foi o mais explícito sobre a âncora econômica. Em Goiânia, defendeu limitar o crescimento dos gastos obrigatórios a 50% da expansão do PIB e cortar 25% das despesas discricionárias. A regra, se implementada, funcionaria como um teto mais rígido que o arcabouço fiscal vigente.

O governador goiano usou o próprio estado como vitrine: “Gestão de gasto público nós mostramos como fazer aqui. O que se precisa no Brasil é saber governar. Mas não só saber governar, é ter autoridade moral para governar”. A fala mira diretamente a credibilidade junto a investidores e agências de rating.

Saúde como vetor de produtividade

Lula (PT) escolheu Belém e Manaus para prometer ampliação de exames modernos, diagnósticos rápidos e acesso a especialistas no SUS. “É um direito do povo ser tratado com respeito e decência”, afirmou. A proposta tem impacto direto na força de trabalho: absenteísmo menor, maior longevidade ativa e redução de custos privados com saúde suplementar.

O recado atinge dois públicos: o eleitorado das periferias urbanas e o setor de saúde privada, que observa se haverá espaço para parcerias público-privadas ou se o caminho será exclusivamente estatal.

O aceno aos empreendedores e a conta do juro alto

Flávio Bolsonaro (PL) caminhou pelo Brás e visitou o Mercadão em São Paulo — coração do comércio popular. O discurso focou na redução de impostos para quem empreende. “Ninguém aguenta mais o juro alto, ninguém aguenta mais o preço das coisas”, disse.

A síntese resume a insatisfação de um contingente que move a economia real: micro e pequenos empresários sufocados por carga tributária, custo de capital e incerteza regulatória. A promessa é genérica, mas o alvo é preciso.

Educação e o fim do arcabouço: a aposta da esquerda radical

Hertz Dias (PSTU), em Brasília, defendeu o fim do arcabouço fiscal e “investimentos massivos na educação pública”. A proposta inclui acesso, permanência e produção de conhecimento voltada às “necessidades da população”.

Para o setor produtivo, o fim da regra fiscal sem substituta clara eleva o prêmio de risco. Para o setor educacional, a promessa de recursos ilimitados colide com a realidade orçamentária — a menos que haja reforma tributária profunda ou emissão monetária.

Mulheres no STF e a pauta de costumes

Clariana Barão (DC), no Mercadão paulistano, prometeu indicar quatro mulheres para o Supremo Tribunal Federal. A candidata também caminhou pelo centro e fez panfletagem. A sinalização atende a uma demanda por representatividade, mas o impacto econômico é indireto: decisões da Corte afetam marcos regulatórios, direitos trabalhistas e segurança jurídica.

O dia de quem dialogou com o establishment

Augusto Cury (Avante) teve agenda distinta: reunião com executivos do Bradesco, encontro com a Associação Nacional dos Transportes Rodoviários (ANTF) e conversa com representantes do YouTube Brasil. Cancelou visita à Assembleia de Deus no Brás.

O roteiro revela onde o candidato busca legitimidade: sistema financeiro, logística de cargas e big techs. Setores que concentram poder de lobby, capacidade de investimento e influência sobre a opinião pública digital.

Ausências que pesam

  • Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata) não tiveram agenda pública
  • Leonardo Avalanche (PRTB) não divulgou compromissos
  • Samara Martins (UP) focou em panfletagem na Mooca e ato pela legalização do aborto na Paulista — pauta de direitos, não de economia
  • Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) circularam em bases regionais (ES e MG) com atos de baixa projeção nacional
  • Edmilson Costa (PCB) concedeu única entrevista à jornalista Renata Regina

O que separa discurso de viabilidade

A última semana de campanha costuma separar promessas de palanque de propostas com lastro técnico. Caiado apresentou números. Lula, metas de cobertura. Flávio Bolsonaro, diagnóstico de dor do setor produtivo. Hertz Dias, ruptura fiscal. Cury, interlocução com grandes players.

Para o investidor e o empresário, a leitura deve ignorar a retórica e focar em três variáveis: regra fiscal crível, simplificação tributária e autonomia do Banco Central. Nenhum candidato detalhou as três de forma integrada até aqui.

O que observar daqui para frente

Os próximos dias trarão sabatinas, debates e possíveis composições de segundo turno. Acompanhe: (1) se algum nome apresenta plano de transição fiscal com datas e metas; (2) como cada campanha trata a Reforma Tributária já aprovada — se promete revogar, ajustar ou regulamentar; (3) sinais sobre indicações para Ministério da Fazenda e Presidência do BC. O mercado precifica incerteza. Quem reduzir a ambiguidade primeiro, leva vantagem — nas urnas e nos ativos.