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Greve na Caixa trava R$ 12 bi em crédito imobiliário e construtoras sentem o baque no caixa

A paralisação dos bancários da Caixa Econômica Federal, iniciada em 10 de setembro, já deixou de ser um problema operacional para virar uma emergência financeira nas construtoras. O banco responde por dois terços de todo o financiamento habitacional do país e opera sozinho o Minha Casa, Minha Vida; quando as agências fecham, a engrenagem para.

São 3,2 mil contratos diários — cerca de R$ 920 milhões — que deixam de fluir na velocidade normal. Em 13 dias de greve, mesmo num cenário conservador de 20% de interrupção, mais de 8 mil vendas ficam penduradas. Se a adesão chegar a 50%, o número salta para 20,8 mil unidades travadas.

Onde o dinheiro para de circular

O impacto ataca duas frentes simultâneas. A primeira é a originação de novos financiamentos: o cliente assina o contrato de compra, mas o repasse ao banco não acontece porque a análise de crédito e a abertura de conta dependem de servidores da Caixa. Correspondentes bancários até recebem a documentação, mas o “sim” final trava nas equipes internas.

A segunda frente atinge quem já vendeu e está construindo. A liberação das parcelas do crédito de obra (o chamado “desembolso”) exige medição de avanço físico feita por inspetores do banco ou credenciados, seguida de validação interna. Sem a assinatura do técnico, o canteiro não recebe.

Relatos de quem está na ponta

A BRZ Empreendimentos, incorporadora focada no MCMV com atuação em 32 cidades, contabiliza R$ 24 milhões de impacto direto no fluxo de caixa até o momento.

  • R$ 17 milhões retidos em 196 vendas de apartamentos com financiamento parado;
  • R$ 7 milhões de medições atrasadas em 14 canteiros de obras.

“Os impactos são na veia. Machucam muito a geração de caixa da nossa empresa e do setor como um todo”, resume Anderson Lopes Morais, diretor comercial da BRZ. A empresa já começou a renegociar prazos com fornecedores de material e serviço para proteger a folha de pagamento.

Interior sofre mais que capitais

Executivos de grandes construtoras listadas na B3 confirmam a assimetria: nas capitais, há agências alternativas abertas; no interior, onde muitas vezes existe apenas uma unidade da Caixa, o atendimento zerou. “Em algumas cidades do interior, parou tudo”, relata um CEO que pediu anonimato.

Plano B: medição remota entra em cena

Diante da indefinição — a expectativa de encerramento na segunda-feira (21) não se confirmou —, a Caixa comunicou às construtoras na terça (22) a reativação da medição remota. O modelo, usado na pandemia, permite que a própria incorporadora preencha uma planilha online com o avanço físico da obra. O banco aceita o documento para liberar a parcela enquanto a greve durar; após o fim do movimento, a vistoria presencial volta a ser obrigatória.

“É o mesmo sistema que implantamos na pandemia e funcionou muito bem”, avalia José Urbano Duarte, ex-vice-presidente de Habitação da Caixa. “Vai ter impacto pelos atrasos até aqui, mas a liberação das parcelas deve fluir de forma relativamente rápida a partir de agora.”

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis definirão a extensão do prejuízo: a duração da greve (sem acordo até o fechamento desta edição), a velocidade de processamento do passivo acumulado quando os servidores voltarem e a adesão das construtoras à medição remota. Para o investidor e o gestor de caixa, o sinal de alerta está no descompasso entre vendas contratadas e recebíveis realizados — um descolamento que, se prolongado, pressiona alavancagem e pode forçar renegociação de dívidas de curto prazo.