Mais de 31 mil empresas fecharam as portas na Argentina desde dezembro de 2023, mas o PIB acumula alta de 2,2% no primeiro semestre. O paradoxo expõe uma fratura exposta: a recuperação macroeconômica não chegou ao varejo, à indústria e aos pequenos negócios que sustentam o emprego formal.
Enquanto a inflação caiu de 211% para 33,5% e o superávit fiscal vira manchete, a pobreza subiu para 32,3% e o desemprego real mascara a precarização. Entender essa “economia de duas velocidades” é essencial para quem opera, investe ou negocia com o país vizinho.
O diagnóstico: crescimento concentrado, dor disseminada
Os motores da expansão são claros: mineração, energia, agronegócio e intermediação financeira. Esses setores puxam dólares, garantem superávit comercial e agradam o FMI. O problema? Juntos, empregam fração da mão de obra que comércio e manufatura absorviam.
Dados do Banco Central (BCRA) confirmam: indústria e varejo encolhem enquanto o setor primário bate recordes de exportação. Para o economista Guido Zack (Fundar/Unsam), “apenas o setor ligado a commodities cresce; enfrentamos o maior número de fechamentos em 20 anos”.
Por que as PMEs estão sumindo do mapa
O Centro de Economia Política Argentina (Cepa) contabilizou 31.342 encerramentos até junho — 6% do total ativo. A metodologia usa dados da Superintendência de Riscos Trabalhistas (SRT), já que não há registro oficial único de abertura/fechamento.
Três vetores explicam a sangria:
- Consumo em queda livre: salários reais perdem para inflação; subsídios a energia e transporte foram cortados.
- Abertura comercial assimétrica: importados entram com carga tributária menor que a da produção local.
- Custo financeiro proibitivo: juros altos e crédito caro sufocam capital de giro.
O caso de Alejandro Marchizotti, 63 anos, ilustra o ciclo: dois empréstimos, equipe reduzida de cinco para um funcionário, contas de luz e gás impagáveis. Fechou a hamburgueria em maio e hoje dirige por aplicativo.
Emprego: a qualidade que os agregados escondem
O governo comemora 500 mil vagas criadas (dados INDEC). Economistas contra-argumentam: o formal encolhe, o informal e o autônomo incham. O próprio Milei admitiu em Nova York: “há contração no setor formal e expansão no informal; o líquido é expansão”.
Para Hernán Letcher (Cepa), “os setores que mais geram emprego estão indo mal”. A UIA alerta para pressão tributária alta e financiamento escasso, classificando o momento industrial como “crítico”.
Duas leituras para o mesmo número
Miguel Boggiano (CDI Capital) contesta o alarme: “empresas que fecharam são micro, de 1-2 funcionários; muitos viviam de emissão monetária do passado”. Ele vê reestruturação estrutural rumo a modelo exportador.
Zack rebate: “abertura em condições desiguais é sentença de morte para empresas nacionais”. Câmbio valorizado, logística cara e impostos estaduais completam o cenário adverso.
O que observar daqui para frente
Outubro traz alta no imposto sobre combustíveis — pressão extra sobre custos logísticos. Em 2025, ano eleitoral, o debate sobre qualidade do emprego e sobrevivência das PMEs deve ditar o ritmo político.
Para o empresário brasileiro, o recado é prático: a demanda interna argentina segue deprimida fora do agronegócio e energia. Oportunidades estão em cadeias de exportação, insumos para mineração/óleo/gás e ativos estressados. Já quem depende de consumo de massa no varejo ou indústria local deve calibrar expectativas e prazos de retorno.
