Economia

O Segredo da Queda de 9% do Dólar: Sell America e o Medo do Fed

Gráfico de queda do índice DXY 9% desde janeiro 2025 com rótulo Sell America
O dólar recuou 9% em 2025 impulsionado pela fuga de ativos americanos, não apenas por juros.

O dólar multilateral derreteu cerca de 9% desde janeiro de 2025, e a maior parte desse tombo não vem de juros, mas de uma fuga generalizada de ativos dos EUA. Entender a divisão exata desse movimento — entre pânico político e fundamentos — é o que separa quem apenas observa de quem se posiciona.

O raio-X da desvalorização: de onde vêm os 9%

Um modelo do Itaú baseado na metodologia do BIS (Banco de Compensações Internacionais) dissecou a queda em choques identificados a partir do comportamento conjunto de dólar, juros, Bolsa, ouro e commodities. O resultado mostra três pilares principais:

  • 4,7 p.p.: “Sell America” — aversão ampla a ativos norte-americanos;
  • 3,0 p.p.: Temores sobre a independência do Federal Reserve;
  • 1,7 p.p.: Política monetária doméstica dos EUA.

Somados, os dois primeiros itens — ambos atrelados à erraticidade da política interna americana — explicam cerca de 8 pontos percentuais da desvalorização. O resíduo técnico completa o total.

O que é, afinal, o “Sell America”?

Não se trata apenas de apostar contra a moeda. Segundo Gabriella Garcia, economista do Itaú Unibanco, o termo descreve uma redução sistêmica da exposição a todos os ativos dos EUA: Bolsa em queda simultânea com juros longos em alta. É o sinal claro de que o prêmio de risco subiu não pelo ciclo econômico, mas pela desconfiança institucional.

Esse movimento ganhou força após o “Liberation Day”, em abril, quando tarifas foram anunciadas contra mais de 180 países. A data funciona como marco zero para a aceleração da fuga de capital.

Independência do Fed: o susto de 3 pontos percentuais

O medo de interferência política no banco central chegou a valer 3 p.p. da queda do dólar. O episódio mais agudo ocorreu em janeiro, com a abertura de investigação criminal contra o então presidente Jerome Powell, ligada à pressão da Casa Branca sobre a taxa de juros.

A possibilidade de remoção de diretores do conselho chegou à Suprema Corte, mas não avançou. A nomeação de Kevin Warsh — escolha de Trump para a presidência do Fed — e a consequente alta de juros funcionaram como “métrica de credibilidade”, nas palavras de Pedro Schneider, economista do banco. O choque na curva de juros, que chegou a 30 pontos-base no auge, dissipou-se.

Tarifas derrubaram a Bolsa, mas pouparam o dólar

Um achado contra-intuitivo do relatório: o tarifaço teve contribuição próxima de zero para a queda da moeda americana. As tarifas afundaram Bolsas e commodities cíclicas (cobre, petróleo Brent) no início do ano, precificando atividade global mais fraca. O cenário do petróleo só mudou no fim de fevereiro, com ataques dos EUA ao Irã.

Enquanto isso, o ouro disparou quase 50% no período, renovando recordes. A alta do metal reflete a busca por proteção diante do mesmo vetor que derruba o dólar: a percepção de risco institucional elevado nos EUA.

Juros longos, IA e commodities: a equação da curva

A inclinação da curva americana (spread 10 anos menos 2 anos) subiu cerca de 10 pontos-base no acumulado do ano, depois de tocar 50. O Itaú atribui a dinâmica a três forças:

  • Sell America: +20 p.b. (prêmio de risco);
  • Inteligência Artificial: +20 p.b. (expectativa de crescimento/investimento);
  • Choque de commodities: -14 p.b. (pressão nos juros curtos).

O banco alerta, contudo, que o impacto da IA pode estar subestimado, pois mudanças graduais dificultam a associação a eventos pontuais.

O que monitorar daqui para frente

O “Sell America” segue como motor dominante, mantendo sua contribuição de 4,7 p.p. próxima das máximas do ano. O medo do Fed arrefeceu, e o peso da política monetária também recuou frente ao primeiro semestre.

Para Schneider, a incerteza geopolítica permanece alta, turbinada por uma atuação americana mais errática. O relatório aponta que os ~8 p.p. ligados à política doméstica são reversíveis: bastariam instituições mais fortes, política econômica previsível e sinais claros de responsabilidade fiscal. Até lá, o prêmio de risco continua embutido no preço do dólar — e no do ouro.