O embaixador dos EUA na China, David Perdue, afirmou em entrevista à Fox News que Donald Trump propôs a venda de armamentos para o regime de Xi Jinping. A revelação ocorre enquanto um pacote de US$ 14 bilhões para Taiwan permanece travado, elevando a tensão no Estreito.
A declaração pegou analistas de surpresa e reacende o debate sobre a coerência da política externa americana na Ásia. O que está por trás desse movimento aparentemente contraditório?
A fala que gerou terremoto diplomático
Questionado se a visita de Xi a Washington na semana passada influenciou o atraso na ajuda a Taipei, Perdue foi direto. Ele citou que Trump costuma dizer: “Ei, nós vendemos armas para outros pelo mundo” e revelou que o presidente chegou a perguntar a Xi se ele “gostaria de comprar algumas”.
O diplomata não precisou se a oferta ocorreu no encontro recente ou em outra ocasião. A ambiguidade, porém, não impediu a onda de críticas imediatas.
Por que especialistas chamam a ideia de “insana”
Zack Cooper, do American Enterprise Institute, ironizou a suposta proposta. “Aposto que Xi ficou tentado a dizer: ‘Vamos levar um de cada, por favor'”, disse ao Financial Times.
O ponto central da crítica é a assimetria: Washington retém bilhões em equipamentos para uma democracia aliada, mas acena com vendas para o principal rival estratégico. Dennis Wilder, ex-assessor da Casa Branca para a Ásia no governo Bush, alerta que até uma “brincadeira” nesse sentido mina a credibilidade dos EUA.
- Pacote travado: US$ 14 bilhões aprovados pelo Congresso para Taiwan aguardam sinal verde.
- Lei vigente: Vendas militares à China são proibidas por legislação americana desde 1989.
- Contexto regional: Pequim apoia militarmente Rússia e Irã, adversários diretos de Washington.
A resposta oficial e o vácuo de sinalização
Horas após a entrevista, autoridades do governo Trump procuraram o Wall Street Journal para conter os danos. Duas fontes confirmaram: não há planos, nem ofertas formais a Pequim, e a lei impede tal comércio.
Mas o estrago na percepção de aliados já estava feito. Edward Wong, ex-chefe da sucursal do New York Times em Pequim, classificou o comentário de Perdue como “algo extraordinário para qualquer presidente americano”.
O que observar daqui para frente
O episódio expõe uma fissura entre a retórica da campanha e a burocracia de segurança nacional. Se o atraso no pacote de Taiwan persistir, a indústria de defesa americana e os mercados de semicondutores sentirão o impacto direto.
Investidores e gestores de risco devem monitorar três variáveis nas próximas semanas: a tramitação do pacote no Congresso, a reação de Taipei ao silêncio da Casa Branca e eventuais movimentos de Pequim no Estreito. A previsibilidade — ativo mais valioso em geopolítica — acabou de ficar mais rara.
