Internacional

Idosa de 87 anos volta para casa após despejo que parou a Espanha

Idosa Maricarmen Abascal, 87 anos, em maca durante despejo em Madrid, Espanha
Maricarmen Abascal, 87 anos, retorna ao lar após despejo que gerou protestos nacionais na Espanha.

Maricarmen Abascal, 87 anos, retornará ao apartamento onde viveu sete décadas após um acordo com os proprietários, anunciou sua advogada nesta segunda-feira (28). O despejo da idosa, realizado na última quarta-feira (23), detonou protestos nacionais e forçou o governo a acelerar negociações por um novo pacote habitacional. Mas a vitória individual esconde uma crise estrutural que o país tenta resolver há anos.

O gatilho que explodiu a rua

A moradora foi retirada em maca do imóvel no bairro nobre de Retiro, em Madri, depois que a imobiliária elevou o aluguel em 275% — para 2.650 euros mensais (cerca de R$ 15,6 mil). Ela sempre pagou em dia. A imagem da aposentada em cadeira de rodas saindo de casa virou símbolo e levou cerca de 100 barracas à Puerta del Sol e dezenas de milhares de pessoas às ruas em todo o território espanhol.

Beatriz Duro, advogada de Abascal, classificou o acordo como “resultado da mobilização social”. O novo contrato prevê valor “semelhante ao que ela vinha pagando” e a volta ocorre após alta hospitalar por exaustão.

O que está em jogo para o mercado imobiliário

O episódio expõe números que investidores e gestores de fundos não podem ignorar:

  • Preço médio do aluguel por m² quase dobrou em 10 anos: 15,10 euros (R$ 89,7) em agosto (Idealista)
  • Valor de compra subiu mais de 50% no mesmo período: 2.355 euros/m² (R$ 13,9 mil)
  • Déficit habitacional estimado pelo Banco da Espanha: 700 mil moradias
  • Habitação pública residual e pressão turística/imigratória sobre a oferta

Para fundos de investimento com exposição ao residencial espanhol, a reação política é o principal risco de curto prazo.

Pacote habitacional na mesa terça-feira

O governo de Pedro Sánchez promete apresentar ao gabinete na terça-feira (29) um novo decreto habitacional. A coalizão negocia com o Sumar (extrema esquerda) e outros partidos, mas não tem maioria parlamentar — um projeto semelhante foi rejeitado no início do ano.

Manifestantes e sindicatos de inquilinos exigem três pilares: congelamento de aluguéis, contratos por prazo indeterminado e barreiras efetivas contra despejos. “Não queremos soluções paliativas”, disse Carme Arcarazo, da União dos Inquilinos da Catalunha, durante protesto em Barcelona com 2.000 pessoas.

Cenários para os próximos meses

Se o decreto avançar, espera-se pressão sobre yields de ativos residenciais e revisão de projeções de rentabilidade para fundos imobiliários. Se travar no Parlamento, a volatilidade social mantém o risco regulatório elevado.

O caso Abascal mostrou que despejos de perfis vulneráveis funcionam como gatilho político imediato. Empresas do setor já revisam políticas de reajuste e comunicação para evitar novos focos de mobilização.

O que observar daqui para frente

Acompanhe a votação parlamentar do pacote habitacional e a reação do setor imobiliário — especialmente de grandes proprietários e fundos — às eventuais medidas de controle de renda. O precedente de Madri pode acelerar judicialização de despejos em massa e forçar revisão de contratos atípicos em carteiras de renda residencial. O custo político de ignorar a pressão de rua subiu drasticamente na última semana.